(imagem de capa: acervo do jornal Última Hora)

Ícone da noite carioca, dançarina inspira documentário e biografia robustos

Bruno Pernambuco

O rompante do cavalo branco, atravessando a avenida movimentada e contemporânea, repleta de automóveis, centro do comércio e da cultura da capital, carrega a nudez polêmica e “desacatante” do seu tempo, protegida por não mais que duas faixas douradas e chamativas. Suzy King- de identidade oficial Georgina Pires Sampaio, mas de outras peles Diva Rios, Jacuí Japurá e Jackie Bailey- foi imortalizada em happenings escandalosos: seu ato de Lady Godiva, o fracasso da tentativa de quebrar o recorde mundial de dias em jejum, para o qual o desfile pela avenida Atlântica servia de anúncio, seu protesto de biquíni contra um malfeitio que julgava ter acontecido a uma de suas cobras, parceiras que lhe acompanhavam pela vida e que pautavam sua criação artística. As contradições dessa mulher do século XX são tema de Suzy King: A Pitonisa da Modernidade, um lançamento que perpassa os desencontros da vida de sua biografada, e que se abre  às suas contradições e complexidades.

Novas Ideias

A Pitonisa da Modernidade é o novo projeto da dupla Os Albertos, dueto formado por Alberto Camarero e Alberto de Oliveira. Elaborado como um almanaque, o livro mistura informações e anúncios da época a sessões de bastidores, que investigam trechos que não haviam sido revelados a respeito dos eventos que compõem a história- construindo, num encontro de imagem e texto, um panorama da vida de Suzy King e dos eventos que a cercavam.

A história da obra parte do final-ou do início, já que uma foto da personagem título com sua cobra serve de capa ao primeiro livro- do último trabalho dos pesquisadores, Cravo na Carne- Fama e Fome: A História do Faquirismo Feminino no Brasil. Na obra anterior, muito já era era desvelado, através de uma robusta pesquisa histórica, a respeito dessas artistas, de trabalho taxado como exótico, cujo metiê atravessou camadas da cultura popular e do underground, e ajudou a formar a cena cultural do Brasil no início do século XX. 

Uma figura, no entanto, desabrochava como personagem especialmente interessante dentro desse universo: Suzy King, que em sua atuação como faquiresa fora marcada por um escândalo, descoberta tentando se alimentar dentro da urna em que visava completar um recorde mundial de 115 dias em jejum, e a respeito de quem pouco se sabia, exceto pelo término repentino, a partir dos anos 60, de seus registros no Brasil. Essa senhora apenas se revelava por meio das polêmicas que havia deixado, do registro- muitas vezes sensacionalista e condenatório por parte da imprensa- de suas disputas e seus protestos. Descobri-la- mais inteiramente, até chegar à pessoa real, além dessas histórias espalhafatosas- foi um esforço que se iniciou antes da elaboração de Cravo na Carne, como admite a introdução de A Pitonisa da Modernidade, e se estendeu após a publicação do livro. Revelar Suzy King é uma tarefa delicada e difícil, e mesmo falar diretamente sobre a sua vida envolve contar camadas de invenção e suposição, falar de uma vida dividida, mas dividida em uma confluência, de pessoa e persona. Esse trabalho, nas suas interrupções, nos seus atravessamentos e misturas de tempos, chega a uma personagem frágil, vítima de flagelos e opressões, e com a marca de ser interminavelmente arauto de sua própria palavra- mesmo que essa sabidamente não fizesse sempre o bem, nem para si nem para aqueles ao seu redor. 

Retratos

Cada personagem envolvido em Suzy King: A Pitonisa da Modernidade é interessantíssimo. Cada uma de suas histórias pode se desdobrar em muitas outras- desde a história do tradicional concurso de Rainha das Atrizes, fonte de infindáveis politicagens até a curiosa história de Nocaute  Jack, o homem que desmascarou a refeição criminosa de Suzy King, e depois tornou-se celebre como membro do estafe da seleção brasileira. A variedade das histórias é marca de uma personagem que viveu profundamente a cultura de sua época, e a afetou, em seu inconformismo com papéis passivos diante da história; e a leveza e naturalidade com que esses arcos se entrelaçam é marca do talento dos autores, que demonstram saber recortar, escolher relatos e apresentar o suficiente para informar o leitor e ao mesmo tempo atiçar sua curiosidade

Este é um livro que revela simultaneamente- e, em ambos os casos, aos poucos- tanto sua personagem principal quanto seus autores-fuções. A escolha por narrar em ordem cronológica os acontecimentos da vida de Suzy clarifica as coisas para o leitor, e ajuda a compreender o trajeto de uma protagonista tão ativa e vasta, enquanto o outro tempo, menos claro, mais circular, da descoberta dos materiais de arquivo, é narrado por meio dos depoimentos de seus escritores- que se metem, também, na história, como personagens seus. A formação conjunta com os autores, que explicitam seus percalços em encontrar suas fontes, e em acessar os relatos que formam a imagem de Suzy King, é um presente entregue ao leitor- que lhe dá a chance de se deliciar com cada descoberta.

Suzy King: A Pitonisa da Modernidade é um livro extremamente visual; colorido, chamativo, sem ser exatamente berrante. Uma obra que aproveita seu pastiche para divertir-se com esse glamour de época, combinando recortes de jornais amarelados, com o charme dos anúncios e das atrações culturais da primeira metade do século XX. A Pitonisa da Modernidade é quase uma grande colagem, e as suas combinações brincam entre esses diferentes papéis, de informar e esclarecer fatos ocorridos e de embaralhar signos, confundir passado e presente, alfinetar um relato sério ou então acrescentar algo que inesperadamente lhe revela melhor.

Falar com leveza de uma história séria como a de Suzy King é o maior triunfo dos autores, e a complexidade e contradição dessa personagem essencialmente moderna nunca se perdem ao longo da obra, sendo descritas numa escrita sucinta, leve, com o tom de uma boa conversa. Como qualquer papo interessante, também, esse diálogo construído em Suzy King: A Pitonisa da Modernidade sabe construir até a emoção de seu desfecho, caminhando com o leitor. É um livro que se encerra com o gosto de uma sensação amena, mas calorosa e viva, que traz a quem lê uma esperança sutil, discreta. Escrever dessa forma, que é quase um oposto daquilo que representou a vida contada na obra, não deixa de ser uma homenagem a Suzy King- um encontro, talvez, com aquela emoção que a vida da personagem dá a entender que ela sempre trabalhou e perseguiu. Dessa confluência surge uma obra multifacetada, que pode ser lida de muitas formas. Um compêndio de histórias valiosíssimas e bem contadas; uma lembrança de uma figura inspiradora, que pode se impor com uma voz alta e um desafio aberto dos tabus; afinal um retrato de uma modernidade que, se acatada sem julgamentos, ainda tem muito a ensinar ao tempo presente.

Suzy King, a Pitonisa da Modernidade

Alberto Camarero e Alberto de Oliveira

Editora Desacato

R$ 119,90

Ano de edição: 2021

208 páginas