Aquele que foi o maior projeto da vida de Denis Diderot agora se torna uma forma de analisar sua obra de forma casada com os acontecimentos de sua vida, revelando, através do personagem, a história do movimento intelectual de uma época.
Bruno Pernambuco
A cápsula do tempo chega até o presente, guardando os conteúdos de um cânone, de uma obra fundamental. Seu conteúdo se transforma, em seus sentidos e interpretações, trazendo à baila uma nova análise da objetividade científica e racional que seu lançamento marcou. Aquele que foi o maior projeto da vida de Denis Diderot agora se torna uma forma de analisar sua obra de forma casada com os acontecimentos de sua vida, revelando, através do personagem, a história do movimento intelectual de uma época.
Multifacetado, como foi a vida de seu personagem, e como era o interesse por diferentes áreas das ciências difundido na cultura do iluminismo, Diderot e Arte de Pensar Livremente chega ao Brasil alguns anos após a conclusão de uma nova tradução de sua principal obra, a Enciclopédia. Andrew Curran, no relato da vida do filósofo francês, elabora uma biografia viva, na qual não só os retratos de época são tomados como biografemas de um momento histórico, revelando as condições que gestaram obras canônicas da filosofia e da ciência política, mas onde o conteúdo da obra de Diderot está projetado no tempo, mostrando sua originalidade diante de seus pares e, ao mesmo tempo, refletindo sobre sua influência em obras contemporâneas.
Uma biografia é sempre mais interessante por aquilo que revela da sombra e da intimidade de seu biografado que pelo que trata da luz e de sua face pública e célebre- essa primeira trata, afinal, daquele conteúdo que só o gênero biográfico é capaz de abordar. O relato da vida de Diderot evoca uma série de mudanças sociais e políticas que formaram as condições para o desenvolvimento da cultura iluminista, e que posteriormente irromperam nos acontecimentos da Revolução Francesa. A interessante análise da intimidade do personagem Denis Diderot se transforma num retrato maior da vida, como se ao expandir uma fotografia do autor que estivesse sendo examinada, e revelar o fundo que o cerca, o todo se transformasse em um novo personagem, cuja vida também é relatada.
Formando o pensamento
O título Diderot e a Arte de Pensar Livremente introduz os dois personagens cuja vida será analisada na biografia de Andrew Curran. A vida do filósofo se confunde com a modernidade europeia, sua crítica da igreja com uma série de contraposições similares colocadas por acadêmicos (e cuja repressão colocaria a monarquia francesa em oposição aos “déspotas esclarecidos” da Europa na época, o par de “grandes”, Frederico e Catarina), a publicação da Enciclopédia com a consolidação de um espírito científico iluminista.
É possível, assim, ver o livre-pensamento como uma figura em desenvolvimento, um movimento que é formado através da ação dos indivíduos, e não um ideal estático, preservado. A biografia cronológica de Andrew Curran se desdobra, notadamente, em meandros e outras formas quando aborda essa figura elusiva. Muitas vezes é necessário mudar a estrutura para transmitir a liberdade do pensamento.
Narrando a juventude de Diderot, Curran constrói um belo retrato da cultura filosófica e literária da França pré-revolucionária, do século XVIII, e com isso apresenta uma situação que, eventualmente, trouxe a possibilidade das ideias liberais se desenvolverem. Em particular a influência da igreja na educação dos jovens é descrita em passagens marcantes, e a maneira como as bases trazidas por essa educação mais tarde serviriam para pautar a crítica voraz dirigida à autoridade constitui um movimento definidor da primeira metade da vida de Diderot.
Este movimento, de formação dentro da tradição teológica e crítica da Igreja, está na origem do círculo acadêmico que virá se formar na época da juventude de Diderot em Paris, reunindo formandos das renomadas instituições jesuítas. A crítica ao absolutismo do poder religioso será o ponto de partida do pensamento de toda uma geração de autores, e a influência mútua dos participantes desse grupo, e a forma como os debates travados nesse espaço se fizeram presentes em obras clássicas, é um tema especialmente analisado por Curran.
Particularmente reveladoras, no âmbito da cooperação e da inspiração mútua entre os autores que fizeram parte do círculo fundado em Paris, são as passagens em que é descrita a influência de Diderot na realização dos Diálogos, cuja elaboração se deu em momento de constantes trocas com o autor da Enciclopédia, num período que esse passava encarcerado, acusado de blasfêmia. Trata-se, dentro da biografia, do momento em que é descrito com maior cuidado um processo coletivo de sugestão e de revisão do texto, contextualizando o acontecimento do lançamento de Rousseau dentro do meio que é apresentado através de Diderot.
Modos de pensar
Se a primeira parte de Diderot e a Arte de Pensar Livremente, acompanhando o desenvolvimento e publicação da Enciclopédia, põe em primeiro plano as amizades do círculo de Paris e as influências compartilhadas entre autores da época, a segunda metade do livro, que analisa a obra de maturidade de Diderot, seu trabalho como dramaturgo, romancista, ensaísta e crítico de arte, se demora numa descrição de relacionamentos pessoais e de documentos íntimos do autor. Encontra-se aí, no esforço do autor, um modo de elaborar as contradições pessoais do personagem Diderot como forma de representar variações da forma textual e da produção filosófica. Na segunda fase da obra de Diderot, em lugar do acadêmico que organizou a Enciclopédia, encontra-se um escritor de diálogos, que explora as contradições de seu trabalho intelectual e sentimental através de oposições e interlocuções, entre seus personagens e interrompendo a si mesmo. A liberdade do pensamento, como destaca Curran nessas seções, se torna forma da escrita, com outras de suas características exploradas em novos escritos.
Uma das passagens mais emocionantes de Diderot e A Arte de Pensar Livremente consiste na descrição de um quadro chamado Menina com um Canário Morto, de Jean-Baptiste Greuze, que o filósofo analisa em um comentário do Salão de Artes do Louvre. Mais uma vez o biólogo destaca, com este excerto, uma fase da escrita do filósofo em que é especialmente explorada a complexidade do pensamento, através de uma sobreposição de estados e sentimentos. A interpretação de Diderot de um sentido que não é imediatamente óbvio no quadro- enxergando a lamentação da jovem retratada com a gaiola vazia como uma representação da perda da virgindade e de seu posterior abandono pelo amante- se mistura com um relato pessoal e com um exercício de imaginação, em que o crítico de arte se imagina diante da garota, num papel de confidente e também de possível amante. Assim a crítica de arte de Diderot se torna não só um exercício de representar as impressões trazidas pela visão da obra, mas também um trabalho literário, que estabelece personagens, reflexões, e produz efeitos particulares através de sua análise.
Além da crítica de arte, e da publicação de diálogos em livro e de peças de teatro, a multifacetada atuação de Diderot em sua fase madura consistirá na publicação de romances, que se tornaram, depois do esforço conjunto da Enciclopédia, suas obras mais célebres. São obras em que se vê esse espírito discursivo, mas que mantêm uma estrutura regular, e cuja principal novidade está em abordar a partir de um outro ponto de vista, eminentemente subjetivo, o absurdo e as consequências perversas da repressão exigida pela igreja- em A Religiosa, por exemplo principal obra desse período, esse movimento é levado a um caso exagerado (ainda que, da forma como é construído, nisso se forme um absurdo extremamente lógico): a protagonista do romance descreve abusos sexuais que sofre de suas superiores em um convento, e uma tentativa de estupro por um padre da congregação, sem se dar conta do que acontece, transformando a ignorância em descrição objetiva dos fatos sem o tabu sexual que é imposto pela igreja.
Retomando autores e autoras que foram esquecidos pelo cânone, com Diderot e a Arte de Pensar Livremente Andrew Curran elabora um belo trabalho histórico de recuperação. Mais que isso, entretanto, o autor consegue animar seu projeto, de utilizar a vida de uma figura histórica como signo para analisar um processo da modernidade, e através disso produz uma biografia viva, “pensante”, por assim dizer. Através de suas escolhas, o autor ilumina elementos que ficaram reprimidos pela história, e, ao falar de personagens que fugiam das normas- sexuais, sociais e, afinal, do pensamento- da época, enriquece o sentido, como documento histórico, da Enciclopédia e das obras posteriores de Diderot.
Diderot e a Arte de Pensar Livremente
Ed. Todavia
392 pp.
R$ 84,90