(Imagem de capa: Portrait de Denis Diderot, Fragonard)
Enciclopédia
[Do latim mod. Encyclopaedia, enkylikos paideía, ‘insturção circular, geral’.]
Substantivo Feminino
- Conhecimentos relativos a todas as ciências humanas
- P. ext. Obra de referência que expõe metodicamente os fatos, as doutrinas, resultados do saber humano universal ou específico de um ramo do conhecimento, biografias de grandes vultos, etc., e na qual se adota em geral a ordem alfabética
- Fig. Indivíduo de vastos conhecimentos, de muito saber; enciclopédia viva; enciclopédico; dicionário vivo; dicionário
Em seu sentido histórico, a enciclopédia é uma coletânea de nadas, uma tentativa de conter o mundo, tirando-lhe a verdade e deixando só a palavra. Um catálogo apenas de invenções, que coloca sob a mesma ordem o que provém do mundo biológico e o que está dentro da cultura; o existente e o assumido, o justo e o injusto, o que pertence e o que não pertence ao seu escopo, o que se adapta ou não à sua ciência.
Gênero que começou com a revolução científica, nenhuma espécie literária teve tanto sucesso quanto as enciclopédias em se diferenciar, ainda que seus livros busquem ser o mesmo. Só os dicionários, seus irmãos menores, com elas podem concorrer nesse quesito — mas as diferenças na definição de uma palavra, talvez justamente por conta de sua concisão, são em geral mais chocantes e perceptíveis que as diferenças entre conceitos, embora essas últimas sejam geralmente bem mais intensas.
A Enciclopédia moderna, original, traçou seu enorme volume precisamente no centro dessa encruzilhada, degustando, de certa forma, a questão irresolvível: o que está capturado lá é o pensamento, essa é sua definição irredutível, o conceito não visto, descrito em tempo real, sem a priori que lhe permita caber em forma definida para que assim se possa analisar os outros. Da mesma forma se deu o seu destino crítico, com uma das obras que fundou o cânone do iluminismo. Um leitor contemporâneo nela vê descrito o tempo, em diferentes formas, ao longo de cinco volumes. Proust é, nesse sentido, o sucessor de Diderot e D’Alembert.
A enciclopédia é um conhecimento seboso, inagarrável. Uma definição que vai se abrindo em outras possibilidades, conforme é necessária a consulta a outros subverbetes. Eventualmente seria necessária uma definição para cada letra, ou para cada espaço que se pode colocar entre uma letra e outra, para que a partir disso se pudessem formar ideias. Muito haveria de se estudar, contudo, de se compartimentar e organizar em categorias o branco, o espaço vazio, antes que se pudesse contemplar a materialidade trazida pelas palavras.
Muitos passos seriam necessários antes de se chegar a uma vírgula — afinal, ela é perigosa, pode criar mundos, inventar diferenças, separação. Mas, da forma que é o conhecimento das enciclopédias, já está presumida (às vezes, de forma até ingênua) a separação, o sentido das letras, a unidade entre uma palavra e dois pontos que antecedem uma definição. Resta ao livro então apenas capturar fac-similes, enumerar imitações, tentar guardar algo do mundo, e de seu movimento, em cada distância,
Por fim, até por conta de sua importância, a enciclopédia é o gênero literário mais íntimo com a sátira. Grandes escritores transformaram-lhe, embaralharam-lhe a ordem alfabética, a ordem das razões, a unidade do sentido, o pressuposto da definição. Alguns fizeram dela um exercício filosófico, pode-se dizer, estipulando outras categorias que estavam fora do seu alcance, e com isso transformando aquilo que permanece dentro da obra. Alguns se limitaram a examinar as transformações de outrem, e com isso sonhar com uma nova enciclopédia, desenvolver — com muito esmero, com precisão e com rigor conceitual — uma projeção de uma projeção. Alguns fizeram dela seu gênero favorito.