Por José Reinaldo do Nascimento Filho
Assim que fechei a leitura de 1984, uma imagem me veio à mente: a de um copo com água. Simples, não?! (Ah, detalhe: a água preenchia metade do recipiente). Algumas pessoas simplesmente pegariam o copo e beberiam a água. Outros, olhariam, virariam as costas, sem dar muita importância. Eu (e sei que muitos de vocês já passaram por esses momentos), um pouco confuso, comecei a me questionar: o copo está meio cheio ou meio vazio?
É fácil compreender o porque do sucesso do último romance de George Orwell. Primeiramente, o nível da escrita é de fácil acesso, sem floreios, sem construções frasais mirabolantes ou descrições à Faulkner ou Huxley. Como entretenimento, funciona perfeitamente bem. Não vou aqui me acanhar e esconder o que sinto: faltou desenvolvimento à narrativa, os diálogos são rasos e a maioria das personagens é bidimensional. Ele, o livro, funciona para nós da mesma maneira que o livro herético de Emmanuel Goldstein – o líder rebelde do romance – funciona para a personagem principal, Winston:
“Em certo sentido (o livro) não lhe dizia nada de novo, o que era parte do fascínio. Dizia o que ele teria dito, se tivesse a capacidade de organizar seus pensamentos dispersos. Era o produto de uma mente semelhante à dele, porém muitíssimo mais poderosa, mais sistemática, menos amedrontada. Os melhores livros, compreendeu, são aqueles que lhe dizem o que você já sabe.”
A história se passa no ano de 1984, em Londres, na Oceânia, uma potência controlada pelo sufocante “Partido” e comandada por um líder (que ninguém nunca viu, mas sabe que existe): o Grande Irmão. Essa sociedade está dividida em três grandes grupos: Núcleo do Partido, Partido Externo e uma massa uniforme, os Proletas. A personagem que dá vida à obra chama-se Winston, um dos membros do Partido Externo e que trabalha num dos vários departamentos do sistema: ele é falsificador de registros. Secretamente, ele reage aos interesses do Partido. Pensa ele que não podia estar só naquele mundo, como o único homem a pensar diferente de todos. Até que ele encontra Júlia. Esta, a pedido dele, apresenta-o a O’brien, um dos líderes da força de oposição, chamada de Confraria…
O que acontece depois, bem, aí você estará num momento muito avançado do livro. Você terá de ler.
Preciso escrever aqui que o decorrer da leitura não me causou o impacto semelhante ao do “A revolução dos bichos” (este que, para mim, está entre o top 10), o que não me impediu de imaginar como foi sua recepção na época do seu lançamento – e nas décadas posteriores – e todo o seu fervor e influência para as gerações posteriores: vide Revolução Cultural, Sexual, Guerra do Vietnã, Guerra Fria (e aqui entra o segundo motivo para o seu estrondoso sucesso).
Segue um trecho para ilustrar bem isso:
De Winston para Júlia:
“Ouça. Quanto maior o número de homens que você teve, maior é o meu amor. Compreende isso?”
“Perfeitamente.”
“Detesto a pureza, odeio a bondade. Não quero virtude em lugar nenhum. Quero que todo mundo seja devasso até os ossos.”
“Bom, então acho que vai gostar de mim, querido. Sou devassa até os ossos”.
“Você gosta de fazer isso? Não me refiro apenas a estar comigo; falo da coisa em si.”
“Adoro.”
(…)
“(…) A união dos dois fora uma batalha; o gozo, uma vitória. Era um golpe assentado contra o Partido. Um ato político.”
“Um ato político”. Caramba, tanta coisa me veio à mente, tantas referências. Palavras automáticas, como: Eros, Frankfurt, Marcuse, Padre Paulo Ricardo… Tentarei explicar: Vemos nesse livro todo um apanhado de influências filosóficas que habitavam as mentes revolucionárias daquela época – dos mais maduros à adolescência -, com um peso maior (pelo menos para mim, imagino) para a Escola de Frankfurt (lembremo-nos de Theodor Adorno, Habermas, Max Horkheimer) e um dos seus maiores colaboradores: Herbert Marcuse (cujo nome conheci graças a uma áudio-aula do Padre Paulo Ricardo).
Este pensador escreveu, dentre tantas outras obras influentes (vide: Ideologia da sociedade industrial, Razão e revolução, O fim da Utopia), Eros e Civilização – Uma Interpretação Filosófica do Pensamento de Freud, um livro de filosofia que, em suma, pretende revisitar as ideias da psicanálise de Freud, criticá-las, relacioná-las ao âmbito da sociedade de classes e destacar os aspectos ainda atuais das teses desse pensador, confrontando-os com o revisionismo dos “neofreudianos”. O capítulo 10 desse livro (“A transformação da Sexualidade em Eros”), acredito, é o mais lembrado para quem já o leu; neste, o filósofo alemão se aventura, corajosamente, a pincelar o que seria e quais seriam os requisitos de uma sociedade não repressiva. Para ele, todo o padrão de prazer libidinal deveria sofrer alterações tão radicais que subverterão e desintegrarão instituições organizadas a partir de relações privadas. Por isso, a luta de Eros, deus da beleza física e do amor sexual, é uma luta política. Em que sentido? Segundo pude entender, e de acordo com as palavras do Padre Paulo Ricardo, o fortalecimento do capitalismo, as guerras, é resultado dessa opressão sobre os instintos naturais, transformando o homem em meros joguetes e mantenedores do famigerado sistema. Como levar à Terra isso? Faça Amor, não faça Guerra!!! “Um ato político”. E para completar ainda esta frase, observem uma das falas de Julia e como ela interpretava o sexo:
“Não era apenas que o instinto sexual criasse um mundo próprio fora do controle do Partido – um instinto que, por isso, se possível, tinha de ser destruído. O mais importante era que a privação sexual levava à histeria, desejável porque podia ser transformada em fervor guerreiro e veneração ao líder. Eis como Julia descrevia a questão: “Quando você faz amor, está consumindo energia; depois se sente feliz e não dá a mínima para coisa nenhuma. E eles não toleram que você sinta assim. Querem que você esteja estourando de energia o tempo todo. Toda essa história da marchar para cima e para baixo e ficar aclamando e agitando bandeiras não passa de sexo que azedou. Se você está feliz na própria pele, por que se excitar com esse negócio de Grande Irmão, Planos Trienais, Dois Minutos de Ódio e todo o resto da besteirada?”.
A felicidade sexual é a maior ameaça ao sistema e esse pensamento de Julia é muito mais perigoso do que as dúvidas existenciais de Winston. “Aboliremos o orgasmo”, diz O’brien numa determinada parte do livro.
O autor – com seu falso e intencional amadorismo – conquista-nos pelo que está sendo contado, pela inventividade empolgante. É como se o que está escrito fosse um mero transmissor, nada mais. O que mais importa é que ele nos faz lembrar coisas das quais normalmente procuramos evitar pensar. Traz-nos à baila questionamentos sobre o sexo, liberdade e a verdade e como seus conceitos podem ser modificados pelo homem. Assim, deixamo-nos levar pela trama concatenada sem nos atermos aos personagens rasos e à trama simples (intencional ou não, não me interessa mais).
Se você não estiver com muita paciência de ler Marcuse, Theodoro, Horkheimer ou Habermas, leia 1984. Um romance subversivo, de trama simples, simples como aquele copo de água que imaginei, mas que nos arrebata aos pensamentos e devaneios mais escabrosos e mais delirantes. Vai à sombra para entender que ela só existe por causa da luz. Um livro que – desculpe-me a arrogância – se não tivesse nada além das personagens e da história, dificilmente entraria na lista dos clássicos.
Há em 1984 muito, muito mais. A genialidade está no pano de fundo. Ali está a alma do livro. Faz-nos acreditar, como diria Ben Pimlott, que os pensamentos incorretos são a essência da liberdade.
Ps: ah, sou pessimista quanto ao futuro.
Ps2: sim, meu copo está meio vazio. E o seu?
Minha Avaliação:
5 estrelas em 5.
