O leitor de O dia do curinga, de Jostein Gaarder, precisa ter a consciência de estar diante um livro infanto-juvenil, escrito com esse propósito: aos doze anos, Hans-Thomas sai da Noruega com o pai para tentar encontrar a mãe, que os abandonara. No caminho, um anão (que reaparecerá várias vezes) entrega a Hans-Thomas uma lupa. Um padeiro de Dorf, cidadezinha dos Alpes, oferece a ele um pão doce que contém um livro, no qual se conta a história da sucessão dos padeiros de Dorf, e como o anão pertence a uma ilha mágica, onde havia uma bebida capaz de materializar as cartas do baralho de um náufrago que ali chegara. Lendo-o, Hans-Thomas vai percebendo para que ele lesse, e seu reencontro com a mãe propiciará o desfecho para a história contida nele, reencontro que fora profetizado 150 anos antes.

O Brasil tem uma literatura juvenil tão ruim, tão mal escrita e pouco ambiciosa que acabamos pedindo a Jostein Gaarder mais do que ele pode oferecer. No entanto, mesmo que o leitor que não faz essa exigência exorbitante (satisfazer um adulto com um romance juvenil) ao autor norueguês, ao ler seus livros vai sentindo um mal estar, difuso ainda em O mundo de Sofia, e que se torna claro e agudo em O dia do curinga (o qual, aliás, foi escrito e publicado anteriormente, em 1990, na Noruega,; o título original é “Kabalmysteriet”). Esse mal estar é a constatação de como as elucubrações filosóficas e a veia fabular de Gaarder são insípidas. Não se pode exigir dele, portanto, que escreva pensando no leitor adulto. Mas de qualquer livro, infantil, juvenil ou adulto, pode-se sempre querer que seja tudo, menos insípido.

Gaarder confunde (deliberadamente?) engenhosidade com imaginação. É o caso da divisão do ano na ilha mágica dos anões que são cartas do baralho: treze meses representados pelas cartas, o que daria 364 dias, sendo o 365º o dia do curinga. Isso é engenhoso, só que não impede que toda a (longa) narrativa centrada na ilha seja chata (assim como o pai de Hans-Thomas) e sem relevo ficcional algum. Quando se toma contato com um mundo imaginário, espera-se que ele tenha vida por si só, independentemente de quaisquer ilações morais ou existenciais que se possam tirar dele. É assim com Swift (Viagens de Gulliver), é assim com Lewis Carroll (Alice no País das Maravilhas), é assim com Charles G. Finney(O circo do dr. Lao), é assim com Monteiro Lobato (todo o mundo do Sítio do Pica-pau Amarelo), e é assim com Salman Rushdie (Haroun e o mar de histórias[1], um livro juvenil especialmente de nossos dias especialmente brilhante). E é por esse motivo que essas histórias são lidas por adultos com o mesmo prazer que seus leitores mirins ou teens. São imaginativos, críticos, estimulantes. Provocam no leitor uma postura menos conformista com relação à realidade.

As histórias de Gaarden são anestesiantes, induzem ao sono da imaginação. Nunca a atiçam, apenas a vaidade do leitor. Todo mundo se sente inteligente e perspicaz lendo O mundo de Sofia  e O dia do curinga e essa é a base do sucesso embusteiro de Jostein Gaarder. Quem prestar atenção verá, em O dia do curinga, como é terrivelmente chata a mania do autor de facilitar o trabalho do leitor, fazendo ele mesmo as analogias entre o que acontece na vida de Hans-Thomas e seu pai mala-sem-alça e o que ele lê na história da ilha mágica. Essas analogias feitas quase que capítulo a capítulo (enquanto que, num livro instigante, deveriam surgir da construção da fábula como um todo), mais uma vez levam a crer que, se há um autor que soube captar realmente a dialética que existe entre os livros e a vida, mesmo num tom meio adocicado, esse autor foi Michael Ende, com seu História sem fim (esqueçam, por favor, as versões cinematográficas bobocas feitas a partir dele). No livro de Ende, o Mundo da Fantasia era ameaçado pelo Nada. O Mundo da Fantasia de Jostein Gaarder já foi engolido por ele há muito tempo.

(resenha publicada, com ligeiras alterações,  em A TRIBUNA de Santos, em 14 de maio de 1996).


[1] Curiosamente, a situação inicial de Haroun émuito parecida com a de O dia do curinga: há o pai e o filho abandonados pela esposa-mãe e que esperam reencontra-la, e em ambos os livros é para esse fim que a narrativa orienta-se. Só que o poder fabulatório de Rushdie é talque ele parece ter uma reserva-extra de fornecimento do mar de histórias, enquanto Gaarder parece ter tido o suprimento cortado por falta de pagamento..