(resenha publicada originalmente, com algumas pequenas alterações, em A TRIBUNA de Santos, em 26 de setembro de 1995)
Grande sucesso do momento, O MUNDO DE SOFIA (“Sofies Verden”, 1991), do norueguês Jostein Gaarder (em tradução de João Azenha Jr., a partir da versão alemã, para a Companhia das Letras), se propõe a resumir didática e ludicamente a história da filosofia ocidental, utilizando a moldura de um romance juvenil, tipo Alice no País das Maravilhas. Como o público brasileiro está mais acostumado com a pobreza de chorar da nossa, digamos, literatura juvenil contemporânea (pelo menos, em sua esmagadora maioria), com suas tramas bocós e seu didatismo de quinta categoria, o livro impressionou e caiu principalmente no gosto dos adultos.
Não é o caso de discorrer aqui sobre a parte filosófica do livro, apesar de ser possível fazer uma infinidade de reparos (o que dizer da apresentação do Iluminismo, por exemplo?), embora Gaarder tenha tido o cuidado de variar as formas de apresentação dos sistemas filosóficos.
O que resta saber é se O MUNDO DE SOFIA representa ou é exceção de uma tendência cada vez mais alarmante do mundo editorial. Antes, um jovem que se interessasse por filosofia (ou qualquer outra área do conhecimento) ia aumentando sua exigência intelectual ao deparar-se com a linguagem dos autores, difícil a princípio, mas que ele ia progressivamente dominando e incorporando. Hoje em dia parece que tudo tem que ser mastigadinho e nossa cultura está degenerando numa “adolescentização”, com um vício tão ruim quanto o das drogas: escrever-se tudo numa eterna linguagem para jovens, e os adultos também lendo assim e contentando com esse estilo primeiros (e únicos) passos.
Devo dizer que Gaarder é melhor que a média. Ele não chega a banalizar seu livro com uma linguagem adolescentizada nem quer dar uma de Spielberg da filosofia. Mesmo assim, não recomendo O MUNDO DE SOFIA para adultos. Quem se interessar por filosofia, que tome vergonha na cara e vá ler os grandes autores.
Minha maior implicância é com o lado ficcional do romance. No início, Gaarder segue o modelo clássico da menina que ingressa num mundo mágico e misterioso (mas que reproduz de certa forma seu universo familiar, é só lembrar de O mágico de Oz): Sofia vai fazer 15 anos e começa a ser brindada com um curso de filosofia por correspondência. Quando conhece pessoalmente seu professor, Alberto Knox, as leis físicas passam a não ter qualquer validade (um cachorro fala, cartões postados com data futura aparecem insolitamente, uma serpente marinha monstruosa emerge de um lago, coisas sonhadas aparecem ao lado da cama, e por aí vai). Tudo isso tem a ver com o aniversário de outra menina, Hilde, cujo pai está no Líbano e é o autor dos cartões-postais endereçados à filha, porém aos cuidados de Sofia, que sequer os conhece.
Aos poucos, vai ficando evidente que o pai de Hilde está escrevendo um livro para a filha e que Sofia e Alberto são personagens dele, apesar de se rebelarem contra essa condição. Isso é pertinente num livro que trata da filosofia e do arbítrio humano de escolher sua ética, sua moral, enfim, o modelo mental da sua existência. Infelizmente, Gaarder cai num pós-modernosa confusão entre o plano imaginário de Sofia e o plano “real” de Hilde, e depois de 300 páginas promissoras (ao todo são 550), seu texto acaba num tiro no pé como o que Umberto Eco deu em si mesmo em A ilha do dia anterior, lembrando mais um jogo de RPG ou brincadeiras com as possibilidades de edição e combinação de um aficcionado por micros.
O leitor acaba sentindo saudade até do meloso (mas que tem os seus encantos) História sem fim, de Michael Ende, que tem uma história de certa forma similar. Mas principalmente de outra Sofia menina, que descobre aos poucos os mistérios e a dor do mundo: a de Os desastres de Sofia, uma das obras-primas de Clarice Lispector.



