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«O que eles deixaram no manicómio»

Avisos de Conteúdo: Linguagem Explícita, Doenças Mentais, 

Tentativa de Suicídio, Aborto, Violência

O lugar de onde partimos pode ter vários propósitos. Porém, nem sempre alcançamos o destino que tínhamos no pensamento, porque, por força das circunstâncias, dos obstáculos ou das necessidades, compreendemos a urgência de fazer um desvio. E foi mais ou menos isso que aconteceu com este livro de Catarina Gomes.

UMA CAIXA COM HISTÓRIA

Coisas de Loucos tinha uma intenção prévia definida, mas a premissa final nasceu de uma forma acidental; nasceu de um acaso que tem tanto de belo, como de desconcertante. Aquando da sua visita ao primeiro hospital psiquiátrico português, o Miguel Bombarda, a autora encontrou uma caixa de cartão com objetos de antigos pacientes. E abraçou a missão de descobrir as vidas dos seus donos e de contar as suas histórias.

«O problema é que o optimismo terapêutico inicial não se cumpriu, e estas 

instituições acabaram por se tornar armazéns sobrelotados de desesperança»

A investigação da jornalista foi bastante minuciosa e permitiu estabelecer uma ponte não só com estes protagonistas esquecidos, mas também com as técnicas terapêuticas, os tratamentos e os preconceitos enraizados na sociedade. Numa época em que se sabia tão pouco acerca da saúde mental e da área psiquiátrica, prevaleceram abordagens torturantes e uma ampliação daquilo que era considerado uma doença.

«São imagens de não-identidade, embora todas tenham o nome no verso»

O retrato dos oito pacientes desta obra - que servem de espelho para tantos outros - pretende resgatá-los do sótão do antigo Rilhafoles e envolvê-los na humanidade que lhes foi roubada. Sem qualquer condescendência ou romantização, deu-lhes voz, um passado e um contexto. Porque cada uma destas pessoas teve uma jornada, até serem isoladas, marginalizadas e confinadas num espaço que não tinha como as proteger.

DIGNIDADE E LEGADO

As perguntas foram-se multiplicando e, por isso, há um paralelismo com a história do hospital e da psiquiatria, em Portugal. Recorrendo a testemunhos de profissionais, que nos possibilitam uma melhor compreensão dos procedimentos, a escrita de Catarina Gomes é de uma sensibilidade e dignidade comoventes. Ainda assim, a leitura desta narrativa não é fácil. Aliás, consegue ser um murro no estômago constante, porque é inconcebível o modo como tantos pacientes foram tratados. Por outro lado, é gratificante ver o quanto a medicina evoluiu.

«Mas às vezes não basta ter tempo»

Coisas de Loucos quebra estigmas [dentro e fora da área de intervenção] e incentiva-nos a refletir sobre liberdade e sobre a sensação de tempo suspenso. Através daquilo que oito pessoas deixaram no manicómio e deste livro que as resgata do esquecimento, há um legado que deixou de estar perdido numa caixa de cartão.

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