Ilustração de Ligia Zilbersztejn
Será que eu havia perdido para esse Usain Bolt em formato de inseto?
Maria Paula Curto*
Acordei com ele se coçando. Na verdade, tentando morder a base do cotoquinho de rabo que, a essa altura da madrugada, já estava em carne viva. Levantei, acendi a luz e fui verificar o que era. Crente que se tratava de uma mísera pulga. Sim, Platão era alérgico a pulgas, acredita? Bastava uma para o coitado empipocar inteiro. Voltando a minha missão de salvadora do pobre animal enlouquecido de coceira, abri aquele monte de pelo babado, tentando enxergar a maldita. Não consegui avistar nada. Comecei a afastar o pelo em todas as direções para ver se a dita já teria fugido para as patas ou orelhas, em vão. Será que eu havia perdido para esse Usain Bolt em formato de inseto? É uma hipótese não só plausível como bastante provável, ainda mais que eu havia esquecido uma arma importante dessa jornada: meus óculos!
Passei a mão na mesinha de cabeceira e, após derrubar dois livros, um lápis (adoro marcar trechos!), o kindle e a cartelinha de coristina D, consegui achar meus óculos. Uau, fiat lux! Volto à batalha, em busca da pulga perdida, quando, para meu horror, avistei aquele ser desprezível. Não, não pode ser. (E antes que você já imagine o pior: não, não era um palhaço genocida agarrado ao pelo do meu pobre poodle, graças a Deus). Para o meu horror, grudado na pele do meu lindinho, ali, completamente estático, havia um carrapato estrela que, dizem, é um dos piores no quesito de transmissão de doenças graves para os cãezinhos. Como ele havia se agarrado ao meu peludinho eu não fazia ideia… ou sim, fazia! Eu tinha levado Platão e Nietzsche – cada um nomeia seus cachorrinhos do jeito que gosta, certo? – a um churrasco num sítio. Só pode ter sido isso. E eles tinham enlouquecido com a liberdade trazida pelo campo. Correram loucamente pelo mato, sem coleiras, livres, leves e soltos. Agora, terão que pagar o preço da glória. A liberdade sempre se cobra, não é mesmo?

Minha vontade imediata era arrancar o tal estrela com a mão mesmo, pela raiva que eu estava daquela coisa mas, felizmente, lembrei que não se deve fazer isso, pois ao puxarmos o infeliz da pele assim, diretamente, ele se agarra mais fortemente na carne e acaba por fazer um estrago ainda maior ao ser retirado. Não o culpo. Ele também quer viver, coitado. E nessa luta, vale se agarrar em tudo. Eu faria o mesmo. Quem não?
Lembrei que o correto é furar o carrapato com um alfinete, matando-o, e assim, ele solta as “perninhas” da pele, facilitando e muito o trabalho de arrancá-lo de lá e reduzindo o estrago na pele do pobre hospedeiro, no caso, meu queridíssimo Platão. O problema estava resolvido. Estava? Quem disse que eu conseguia? Primeiro, onde achar um alfinete? Tá bom, eu sou a única pessoa no mundo que, mesmo sem costurar absolutamente nada, até tem uma “caixinha de costura” para emergência, mas que não faz a menor ideia de onde estará esse objeto às duas da manhã? Se sim, ok, podem me crucificar… Após uma procura de uns quinze minutos, mais ou menos, consegui achar um alfinete tipo de fralda, sabe? Que eu usava para fechar um decote de uma blusa por dentro, para não aparecer. (ok, eu também sou a única que faz isso, tudo bem) Arreganhei as pernas do tal alfinete para poder ter aquela espécie de “lança salvadora de poodles inocentes” e lá fui eu em direção à coxa do Platão, me achando a guerreira ninja dos trópicos. Parecia fácil. Tolinha.

Primeiro, eu acabei ficando com pena daquele ser que lutava pelo pão, ou melhor, sangue nosso do dia a dia. Será que ele merecia mesmo morrer? E eu teria coragem de ser essa assassina fria e cruel? Depois, porque eu sou a pessoa mais desajeitada da face da Terra e comecei a temer pela integridade física do meu cãozinho. Como eu ia conseguir enfiar o tal alfinete no carrapato sem machucar o Platão? Das duas, uma: ou eu não ia conseguir enfiar a minha lança-alfinete na profundidade necessária para matar o bicho, ou eu ia fazer uma ferida ainda maior na perninha do meu pobre cãozinho que, a essa altura, já tinha parado de se coçar e tentava até dormir. Platão, sempre muito sábio e conhecedor das minhas capacidades manuais, estava temeroso do resultado desastroso que se aproximava…

Pensei com os meus botões: Maria Paula, volte aqui! Você não pode ser derrotada por um simples carrapato, mulher de Deus! Vá à luta, por favor. Nem que seja em nome do seu cãozinho querido. E lá fui eu, destemida e corajosa, de arma na mão (o alfinete, que fique claro isso), matar o pobre ser. Enfiei a minha lança naquela pele durinha e marrom, sem dó nem piedade (mentira, acho até que escorreu uma pequena lágrima do meu olho esquerdo…), ouvi um estalo e sim, ele morreu, e suas patinhas já não ofereciam qualquer resistência ao meu puxão. Fui até o banheiro e vi seguir descarga abaixo aquele pequeno ser.
Final feliz para o meu cão: apenas uma vermelhidão na pele lembrando que toda liberdade tem seu preço. Já para o carrapato, a história não terminou nada bem. Perdeu a vida, por conta de um banquete do Platão…

Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP.