02/08/2012 · 2:22 PM

escrito por Murilo

Em um bar, dois homens praticam a famigerada filosofia de boteco. Curiosamente, um deles se chama Sócrates – mas mais devido ao jogador do que ao filósofo. Não por acaso, entre beber e filosofar, ele prefere a primeira opção, assim como o finado futebolista. No entanto, às vezes mistura as duas coisas, como agora é o caso.

– Você não precisa de muita coisa para ser feliz, sabia? – pergunta Sócrates ao outro.
– Ora, não me venha com essa filosofia barata. É claro que preciso.
– Vou te provar. Você está feliz agora, não?
– Não muito.
– Pelo menos um pouco feliz está. Olhe essa cerveja no seu copo, o bar ao redor… traz um pouco de felicidade, não?
– Sim, um pouco sim.
– Pois bem, agora me diga coisas que, se fossem diferentes aqui, te deixariam ainda mais feliz.
– Bom, para começar eu poderia estar bebendo uma cerveja melhor – dá risada.
– Então tá. Vai imaginando aí, enquanto eu encho seu copo, que essa Antarctica é na verdade uma Stout. Pode ser? Uma Guinness?
– Uhum – concorda.
– Imagine você bebendo uma Guinness, em um boteco melhor… o que mais?
– Umas gostosas também. Por todo lado.
– Tipo em uma…
– Não. Não esse tipo de lugar. As mulheres não estão cobrando nada.
– Entendi. E o que mais? – Sócrates enche os copos novamente.
– Ora, eu podia estar pegando uma dessas gostosas.
– Uma?
– Duas. Melhor duas. E lá fora eu teria um carro importado estacionado também.
– Que carro, um Camaro?
– Não – pensa um pouco enquanto bebe meio copo – Acho que um Mustang.
– Boa escolha. E nessa situação você está feliz para caralho?
– Com certeza.
– Mas poderia estar mais feliz ainda, não? – indaga, enquanto sinaliza para o garçon trazer outra garrafa cheia.
– Provavelmente.
– Veja só, você é um bon bivant, bebendo Guinness em Búzios, e está prestes a levar duas mulheres maravilhosas para o seu Mustang.
– É. Mas acho que eu ficaria ainda mais feliz se eu quisesse pegar essas mulheres há muito tempo, e agora estivesse conseguindo. E também se eu não tivesse que trabalhar no dia seguinte – riu-se.
– Hum… faça um esforço para se imaginar na cena. Você está conseguindo desfrutar de sua máxima felicidade?
O homem fecha os olhos e reflete, não antes de virar mais um copo de cerveja.
– Não sei. Estou feliz, mas sempre tem alguma coisinha que incomoda, não é?
– É verdade – concorda Sócrates – e o que o está incomodando agora?
– Pode parecer ridículo, mas o que mais está me incomodando é uma maldita vontade de mijar. Sabe como é, né? A cerveja…
– Isso, estamos chegando aonde eu quero chegar. O que você faz nessa situação?
– Vou no banheiro, é claro.
– Muito bem, imagine-se com toda a sua concentração agora. Você está em uma noite perfeita, acompanhado de mulheres perfeitas, com muito dinheiro e poucos compromissos. Você está no banheiro, mijando e pensando em tudo isso. Você está no ápice de sua felicidade?
– Sim, agora com certeza.
– Muito bem. E o que te fez chegar no ápice da felicidade?
– Ora, todas essas coisas que você disse que tenho. Dinheiro, mulher, saúde, sucesso…
– Pense bem. Tem certeza? – indaga Sócrates.
O homem pensa, pensa e responde:
-Tem razão. Não foi nada disso.
– E o que foi, então?
– A mijada. Foi a mijada. Nada no mundo é melhor do que uma boa mijada.
– Muito bem. Agora você compreende.

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