resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 09 de outubro de 2012

Nas últimas semanas, perdemos, com modesta repercussão, dois grandes nomes, um na área da ciência política (Carlos Nelson Coutinho), o outro na literatura (Autran Dourado).

Uma outra perda teve ressonância mundial: a de Eric Hobsbawm (nascido em 1917), que escreveu (entre outras realizações notáveis, incluindo uma sedutora autobiografia, Tempos Interessantes) a síntese mais brilhante e consistente dos últimos 250 anos, na série composta por A Era das Revoluções, A Era do Capital, A Era do Império e A Era dos Extremos.

Recentemente a Companhia das Letras lançou Como mudar o mundo- Marx e o marxismo ((“How to change the world-Marx and the marxism, 1840-2011”, em tradução de Donaldson M. Garschagen), reunião de 16 textos, os mais recentes datados de 2010, provando que ele continuava atento, arguto, absolutamente “antenado”, como se diz, caso não bastasse como prova a longa entrevista publicada por aqui com o título O Novo Século; diga-se de passagem,  Carlos Nelson Coutinho é citado na abertura de um deles, A recepção das ideias de Gramsci, de uma forma que não permite dúvidas quanto ao respeito intelectual que Hobsbawm nutria pelo ensaísta brasileiro.

O livro é simetricamente dividido, cada uma das duas partes com 8 capítulos. Na primeira, ele enfoca de diversas maneiras o legado de Marx (sobretudo) e Engels, os seus textos propriamente ditos. Assim, temos duas introduções maravilhosas para dois clássicos do marxismo, A situação da classe trabalhadora na Inglaterra (Engels) e o Manifesto Comunista (colaboração dos dois, redação de Marx), permitindo uma visão em que—apesar da figura gigantesca do autor de O Capital—seu parceiro intelectual não seja obscurecido. Só me permito discordar de uma afirmação, que me parece idealizadora em demasia: “Quando dois homens trabalham juntos durante mais de quarenta anos, como fizeram Marx e Engels, sem nenhum desacordo teórico substancial, cabe presumir que um saiba o que passa pela cabeça do outro”. Não estou tão certo disso. A prova disso é que Engels, nas publicações póstumas dos textos de Marx, em que fez a função de Max Brod com relação a Kafka, não conseguiu aclarar o que era obscuro e deu margem a discussões intermináveis.

Mas a própria leitura de Como mudar o mundo mostra que, à exceção do jornalismo combativo (e sensacional), de alguns panfletos e ensaios no calor da hora, e do primeiro volume de O Capital, o que ficou dos escritos de Marx jamais forma um conjunto coeso: são anotações de leitura, rascunhos, textos inacabados, enfim uma obra “aberta” que gerou barafunda ou, pior ainda, a tendência soviética de criar um cânone clássico a ser consultado quase como uma exegese teológica. O problema é que foram publicados os Manuscritos Econômicos Filosóficos, que geraram a adesão de alguns a um “Jovem Marx” (muitas vezes contraditório com relação ao Marx da ortodoxia comunista), e mais tarde—numa história pra lá de tortuosa—os Grundrisse, que representam os estudos e considerações do Marx maduro que se preparava para a empreitada de O Capital, um “rascunhão”  no qual Hobsbawm mergulha apaixonada e apaixonantemente.

A meu ver, esse é um ponto alto da coletânea, ainda mais para os brasileiros, já que a tradução dos Grundrisse foi um acontecimento editorial no ano passado. E como mostra triunfantemente o maior dos historiadores contemporâneos, que adotou a Grã-Bretanha como lar (assim como fez o genial pensador alemão), a crise nos últimos anos (mesmo derrotado o império soviético e com o triunfo do mercado) fez recrudescer o impacto das ideias marxistas. O Manifesto (não pelo seu messianismo socialista decerto, e sim como diagnóstico do capitalismo) continua ainda atualíssimo.

Entretanto, para os leitores em geral, acredito que a segunda parte talvez seja de maior interesse. Menos calcada na análise das fontes do marxismo, e com Hobsbawm fazendo pulsar sua inigualável veia de narrador da História, ele recapitula diversos momentos em que a força ideológica e intelectual das ideias marxistas ganharam o mundo (como o das lutas antifascistas, entre 1929 e 1945), a sua penetração na militância trabalhista, sua decadência após a queda do regime soviética, sua revitalização diante da crise do “fundamentalismo de mercado”, cujos profetas eram o presidente Reagan e aquela Primeira-Ministra da Inglaterra de triste memória que, por causa de uma atriz incomum, voltou à baila—com uns  laivos de romantismo e heroicização da sua figura, absolutamente indecentes.

Ao fim e ao cabo, descobrimos que, com todas as desconstruções e derrocadas da “modernidade líquida”, Marx—assim como Freud—é um pensador ainda vivo e lépido. E que o mundo perdeu em primeiro de outubro de 2012 um dos raros intelectos capazes de ler as linhas da mão do processo histórico e enunciar seus vaticínios.