Era uma vez o Antropoceno
Antropoceno, Crítica social, Individualismo, Crise climática, Ficção científica
Prédios muito altos, geralmente espelhados e com robustas estruturas metálicas, eram sinônimo de progresso. Gustavo Nagib* No Antropoceno, a ausência de cores vivas era imperativa. Não apenas em muros, ruas, prédios e construções, mas especialmente nas relações humanas. Todos viviam numa enorme solidão, por vezes disfarçada de uma estética hipster, que forjava uma autoproteção contra o vazio existencial. Sofria-se com o aquecimento global e com a falta de calor humano. Reinava uma indiferença generalizada com muito álcool em gel. Nada era muito espontâneo. Preferiu-se uniformizar as expressões corporais, paralisando o rosto com botox e captando infinitas sequências de selfies pelas câmeras dos smartphones. O individualismo exacerbado estava na moda. As pessoas se autonamoravam e, portanto, ninguém (ou todo mundo) era solteiro. Ninguém e todo mundo eram a mesma coisa. Naquela época, as paisagens eram frequentemente adornadas por patinetes elétricos, tênis brancos, calças de moletom e pochetes a tiracolo. O paisagismo valorizava a criação de imensos gramados estéreis. As pessoas ficavam muito aflitas com a possibilidade de se sujar de terra e de se deparar com um inseto. Elas também preferiam arrancar as árvores, já que as folhas sujavam a cidade e as raízes destruíam as calçadas. No entanto, muito se reclamava das altas temperaturas e da falta de água. Os caminhos eram concretados ou asfaltados. Prédios muito altos, geralmente espelhados e com robustas estruturas metálicas, eram sinônimo de progresso. Aliás, parece que a única coisa democrática do Antropoceno foi o seu fim. Foto: reprodução. Como a camada de ozônio estava muito afinada, todos se enchiam de protetor solar. As luzes dos computadores e celulares danificavam a visão. As redes sociais causavam dependência e elevavam os níveis de ansiedade. Nunca se tomou tanto antidepressivo. Rios e oceanos foram entupidos de plástico. As florestas foram queimadas. A comida costumava estar repleta de substâncias tóxicas. As pessoas endinheiradas preferiam, então, se isolar em ambientes fechados, de preferência com climatização artificial, wi-fi e segurança particular. As demais, apenas contavam as horas para o fim. Aliás, parece que a única coisa democrática do Antropoceno foi o seu fim: não sobrou ninguém. Continuaremos, todavia, nossas pesquisas com afinco. Esperamos poder enviar mais informações em breve diretamente deste incrível planeta Terra, onde decidimos pousar durante nossa longa viagem rumo a Andrômeda. * é geógrafo, Doutor pela Universidade de São Paulo (USP) e poeta. Autor das obras “Amar: verbo indefinido” (Mini, 2015) e “Agricultura Urbana como Ativismo na Cidade de São Paulo” (Annablume, 2018)
Texto originalmente publicado em Revista Fina