A vigilância permanente, que já havia se globalizado, se alastra, enfim, pelas camadas mais interiores e secretas da vida cotidiana Gustavo Nagib É doutor em Geografia Humana pela USP e poeta. A trama espacial da pandemia de Covid-19 é plural em sua abrangência: política, econômica, urbana, agrária, hidrográfica, climática, botânica, cultural, populacional, no turismo, nos transportes, no planejamento etc. As territorialidades pandêmicas, que têm sido muito bem cartografadas e analisadas simultaneamente aos novos acontecimentos, revelam esta pluralidade. No complexo emaranhado de redes e conexões da Covid-19, é bastante impressionante, porém, a capacidade de se aprimorar ininterruptamente o controle sobre os espaços da subjetividade humana. A vigilância permanente, que já havia se globalizado, se alastra, enfim, pelas camadas mais interiores e secretas da vida cotidiana. A comida, o sexo, as horas de sono, a risada com os amigos, o momento debaixo do chuveiro: tudo é processado, criptografado e devidamente mercantilizado nos mais íntimos detalhes. É preciso obter absolutamente todas as informações pessoais para submetê-las ao criterioso processo das regras sanitárias em vigor. Mas fiquem tranquilos, em respeito aos seus dados sensíveis, tudo será bem protegido por login e senha únicos sob a segurança de uma grande transnacional do setor de comunicações. Já não é mais tão evidente a fronteira entre o virtual e o material. Sem a necessidade de se colocar de frente para o espelho, o virtual somos nós mesmos, nossos sentimentos, nossas emoções e nossos espaços (não mais) secretos. Somos todos máquinas e humanos, feitos de sangue e de silício. Por sinal, faz tempo que até as pandemias também são virtuais. Não é de hoje que há empresas de antivírus lucrando com a venda de “vacinas” contra as pragas que infectam os computadores. Contraditoriamente, seguimos em botes furados, remando pelo velho Mediterrâneo, nunca tão imenso, cheio de lixo e manchado de sangue humano. Permanece o enorme desespero para conseguir chegar em algum lugar. O desespero de ser alguém. De não morrer na praia. De possuir uma senha que nos permita entrar no paraíso (ou sair do inferno). Vencidos todos os exércitos e as poderosas lentes das câmeras da vigilância fronteiriça, deve-se ainda apresentar um passe sanitário com QR code. Material e virtualmente, a pandemia somos nós.