A pergunta é: entre tantas histórias, quais sobrevivem?

Matheus Lopes Quirino, editor da Fina

Sobre escrever. Sendo as linhas conduzidas a um lugar confortável, atravessa-se um campo de centeio como um cão até o precipício. Incômodo. Toca, abre a ferida, uiva para lua, sozinho. Coloca à mercê dos temores mais fantasmagóricos. Grita, faz arrepio e dá nó. Assim se começa a escrever, dos primeiros garranchos, das ideias confortáveis ao desconforto, ao sofrimento e tudo que além deste há em páginas.

E onde se lê desconforto, também se encaixa desafio. Não tem como subir degraus assim, sem mais. Há muita coisa perecível embrulhada em jornais e revistas. E, tais como este texto, que falhará, certamente, a mensagem se restringe a alguns pares de olhos até culminar no absoluto buraco da insignificância, como milhões de textos. A produção, de tudo que é perecível, aumenta. E, curiosamente, os leitores comem mal. Subnutridos, muitas vezes o que é de fácil consumo (junky literature) não preenche aquele vazio que ronca.

Muita coisa cresce e fenece num piscar, não dá tempo de mastigar palavra por palavra. Até a crônica, essa janela para o paraíso na escrita da imprensa, está condenada. Fala-se de política, mortes, sangue escorre, problemas homéricos, causos impossíveis. Hoje a crônica se transformou na extensão de um comício, em um caixote 0800, disque reclamação. A leveza, a contemplação, o balão de oxigênio para o ar repleto de chumbo dos jornais, contaminados pela podre política, custa muito caro.

Um cronista custa caro. E, penso eu, é um trabalho tão refinado que, para ser cronista, não basta seguir a fórmula do bom jornalismo, pingar doses homeopáticas de literatura. é necessário filtrar muitas vezes o ar poluído entre informações, notas, reclamações, opiniões prepotentes, deboches institucionais, mentiras, tristes notícias, e tão tristes mesmo.

Como morre tudo que é perecível, e, de repente, passa-se uma década e percebemos que muito pouco brilha, menos ainda em comparação com a década anterior. Nos jornais, a crônica respira por aparelhos. Há quem ainda faça o procedimento, conta-se nos dedos das mãos quem são, e se não são carecas, têm cabelos brancos.

Assunto para outra deixa, se houver, é o espaço, o palco, a ribalta para tudo aquilo que não é perecível e, por isso mesmo, tornou o jornal um estrelado número que vira e mexe se recorda. De cabeça, lembro-me de Reflexos Num Olho Dourado, de Carson McCullers, publicado na revista Harper’s Bazaar. Do fino trato de Balzac com a crônica de costumes, que Machado requintou, e no Brasil fez escola. É loucura pensar que leiam, transformem, façam, reivindiquem espaço, escribas. O jornal está com os dias contados e deveria investir em algo que não é perecível, e quem sabe tentar salvar seu pescoço.

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Publicado por Matheus Lopes Quirino

Jornalista, foi repórter e editor-assistente do caderno Aliás do jornal O Estado de S. Paulo. Escreve sobre livros, artes visuais e cultura. Ver todos os posts de Matheus Lopes Quirino