É uma lógica pouco romântica. As coisas se contorceram de um jeito que não há heroísmo nenhum dar as caras nas redes sociais
Affonso Duprat
São tantas ideias pela metade. Se os escritores do início do século 20 vivessem hoje, seriam eles influencers? O jornalismo, ganha pão de outrora, é sepultado pelos mais convictos no ofício, quando revistas entram na falência, jornais minguam ou desaparecem e cadernos de cultura e artes são descontinuados. O escritor que no passado sobreviveu do ordenado das páginas efêmeras, hoje, encontraria na efemeridade das redes nem o sustento, nem a fama – talvez a infâmia, depois que passasse pelo BBB.
É uma lógica pouco romântica. As coisas se contorceram de um jeito que não há heroísmo nenhum dar as caras nas redes sociais. É puro suco concentrado de blasé e lantejoulas postiças colocadas por algum aplicativo. É tudo mentira. Colocar uma sombra roxa ou fantasia de palhaço. Lá estão os verdadeiros clowns a pular vídeos de cinco segundos. No baixo clero da influência digital, quando muito, dez, quinze conto por mês para atingir, sei lá, cem, duzentos mil visualizações. É uma corrida que exige um esforço físico e demanda como o trabalha do jornalismo de outra época. A diferença é que ele comprava uma casa aos 30. Você, caro influencer, está com o aluguel atrasado.
Sinto escrever para ninguém. São lá sete ou oito caras que olham o texto dedilhado às pressas. Sem nenhum compromisso, talvez alguma dose de piedade. O ofício da escrita agoniza. As palavras aparecem tortas em legendas mal colocadas – geradas automaticamente. É tudo muito rápido. É difícil acompanhar a velocidade com que os conteúdos andam. As pessoas devem estar constipadas. Ansiosas pra burro para consumir, consumir, consumir. Quantidade elevada a números estratosféricos.
Estratosférico não é bem a palavra. É a tal audiência. Audiência digital versus audiência de papel. Nocaute e sem nada para dizer. Ninguém liga para um texto de literatura a não ser que o texto de literatura tenha alguma blague. Alguma fofoca incontida que ultrapasse os limites da análise e chegue ao cunho pessoal. Do tipo “eu vou te foder”, ou “Eu sou melhor que você e bla, bla, bla”. Argumentos espúrios, chatos e militontos que dão vontade de dormir.
O que não se pode fazer é dizer que não se pode falar mal. Vir moralista. Virar rancoroso. Sei lá. Como vamos pagar os boletos do fim do mês? Os ricos continuam viajando e as redações falindo. Os jovens se enfiando em caixas de sapato e trabalhando 12 por 24. Batendo as letras à tinta de sangue nos olhos. Comendo o hamburguer solapado da caixa de sapato com calda extra de açúcar fake e uma pitada de agrotóxico que mata.
As noites insones juntam comprimidos, bebidas, drogas ilícitas compradas por delivery. Atravessar a noite minguando à luz azul, com os olhos estourados e os tímpanos molengas. Não há som que entre no quarto sem janelas e nas meias úmidas que demoram a secar. É esse o estado 4×4 das postagens das redes sociais. Unidades precárias de luz, som, cor e vida. A vida se esparrama e tem dificuldade de completar o download. São muitas coisas na memória e tudo é difícil de apagar. É hora de jogar o lixo fora; limpar a casa. Sair para jantar, ouvir música ao vivo tocada por um mendigo. Ver a vida sem as lentes das redes e sem a empáfia dos computadores. A vida pulsa como um filhote de gato que dá o primeiro miado rouco, é bela e frágil. É bem diferente de um descanso de tela.