VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/09/30/a-nau-dos-insensatos-de-autran-dourado/

https://armonte.wordpress.com/2012/09/30/antigona-perdida-na-%E2%80%9Ccidadezinha-qualquer%E2%80%9D/

https://armonte.wordpress.com/2012/04/13/o-lugar-vazio-na-roda-o-risco-do-bordado-de-autran-dourado/

https://armonte.wordpress.com/2013/04/14/troia-miuda-duas-resenhas-sobre-novelario-de-donga-novais/

https://armonte.wordpress.com/2012/09/30/autran-dourado-sempre-o-mesmo-sempre-mutavel/

https://armonte.wordpress.com/2012/09/30/aproximacoes-entre-faulkner-autran-dourado-e-a-falta-tragica/

https://armonte.wordpress.com/2012/09/30/autran-dourado-capitula-diante-do-senhor-das-horas/

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 20 de abril de 1999)

Há 25 anos, era publicado Os sinos da agonia, uma das raras experiências bem-sucedidas de um escritor brasileiro no terreno do romance histórico. A trama (e a palavra trama poucas vezes teve tanta importância quanto nesse livro) se passa na Vila Rica do século XVIII, à época da Inconfidência Mineira.

O charme do romance de Autran Durado, contudo, é justamente que ele contraria completamente o figurino do romance histórico. Apesar da “ambientação vocabular” e do ritmo da linguagem evocarem convincentemente costumes e etiquetas sociais setecentistas, Os sinos da agonia se mantém distante dos grandes acontecimentos da época e praticamente se passa dentro de um sobrado, envolvendo pouquíssimos personagens e transcorrendo numa atmosfera altamente simbólica.

Assim como o pai e o filho de Ópera dos mortos (livro mais famoso de Dourado), João Diogo e Gaspar são quase opostos: o pai é um desbravador, um homem brutal; o filho é letrado e delicado. Quando o sessentão João Diogo comunica seu casamento com Malvina, uma moça de 20 anos, Gaspar decide embrenhar-se no sertão e ficar afastado do pai, sem conhecer a madrasta.

É brilhante a maneira como Dourado vai mostrando ao leitor o domínio sub-reptício que a jovem Malvina vai obtendo sobre o velho desbravador, “sofisticando-o” e enfraquecendo-o enquanto homem autoritário e patriarcal. Com o retorno de Gaspar, cria-se um pequeno impasse, mas a “madrasta” consegue fazê-lo sentir-se à vontade, tecendo assim a teia que transformará essa súbita empatia entre madrasta e enteado numa paixão cheia de interditos (na época, inclusive, era considerada incesto).

Malvina, desesperada, procura fazer com que Gaspar tome consciência da sua paixão I(mas não consegue perceber se é correspondida ou não). A solução que ela encontra é inusitada: torna-se amante de Januário e trama com ele a morte de João Diogo. Quando ela acontece, Januário é acusado de algo mais grave: participar da conspiração contra o reino conhecida como Inconfidência e, como trânsfuga, tem encenada sua morte em efígie, isto é, um boneco é morto em praça pública, representando-o, e é como se ele já estivesse morto (e é como ele passa a se considerar, como um fantasma que vive do passado, algo muito comum nas narrativas de Autran Dourado).

Os sinos da agonia marca o encontro da tragédia com o romance, ao recontar a história de Hipólito, a grande peça de Eurípedes, na qual Fedra, mulher de Teseu, apaixona-se pelo filho deste, Hipólito. Por outro lado, sua Malvina nos lembra também Madame Bovary, a mulher incapaz de aceitar o cotidiano medíocre e que procura transformar em realidade as suas fantasias pueris, criadas a partir de uma “cultura” de segunda categoria, auto-iludida.

O grande escritor mineiro articular essa mistura de paixão desmedida (Fedra) com a fantasia que distorce a realidade (Emma Bovary) através de sua maestria técnica: a história é contada primeiro do ponto de vista de Januário, quando volta para Vila Rica um ano depois da tragédia; depois, sob o ponto de vista de Malvina, para só depois descobrirmos o que se passa no íntimo de Gaspar/Hipólito. Assim, o leitor nunca tem a história completa, sempre há mais uma volta do parafuso para dar novas conotações ao que já havia sido contado e recontado. Além disso, como sempre, na sua narrativa,o tempo parece ficar “congelado” e passado, presente e futuro fatalístico se misturam. Os personagens parecem viver ritualmente.

Na época da publicação de Os sinos da agonia (1974), o livro beneficiava-se também de uma dúplice leitura simultânea: era um romance histórico ousado, trabalhando mais com uma representação simbólica do que com um apego pelo simples “retrato de época”; era uma releitura de uma história mítica e arcaica, que atravessou a história da literatura; e era uma alegoria poderosa da ditadura pós-1964, basta reparar no clima de ameaça velada e no autoritarismo indisfarçado que penetra até nos ambientes fechadíssimos do romance. Vinte e cinco anos depois, o leitor já não precisa fazer a última interpretação e ler nas Minas do final do século XVIII o Brasil dos anos 70. Mas nem por isso Os sinos da agonia deixa de ser um dos melhores momentos de Autran Dourado, um romance perfeito onde a tragédia e a”vida  besta” mineira (como dizia o poema de Drummond) convergem no movimento dos personagens com um máximo de sutileza, habilidade técnica e precisão dramática.