(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 30 de novembro de 1999)
Ópera dos Mortos (1967) é o livro mais famoso de Autran Dourado e, numa releitura, pode-se constatar o quanto essa fama é merecida. É uma obra-prima.
O romance conta a história da principal família de Duas Pontes, no início da República. Rosalina, a última dos Honório Cota, mantém-se trancada no sobrado familiar, recusando-se a qualquer tipo de ligação com a cidade (a não ser por meio de sua empregada muda, Quiquina), pois mantém-se fiel à atitude do pai, João Capistrano, o qual sentiu-se traído numa eleição (roubada, de fato) e passou a viver recluso e casmurro.
Após longos anos de isolamento, Rosalina admite como empregado e forasteiro Juca Passarinho, um malandro boa-vida, “apenas porque não é da cidade”. Juca descobrirá o segredo de Rosalina: ela se embebeda todas as noites. Numa delas, Quiquina esquece a porta da casa aberta, Juca entra (ou podemos utilizar “penetra”) e, aí, já se sabe: Rosalina grávida, Quiquina ajuda-a no parto e mata a criança, entregando-a para Juca “dar sumiço”.
A dona do sobrado Honório Cota acaba enlouquecendo e apavora os habitantes, ao ficar entoando uma cantiga estranha no cemitério. Até que se descobre a identidade do “fantasma” e a cidadezinha tem a oportunidade de entrar novamente no sobrado, que lhe parecia definitivamente vetado: “Agora a gente estava de novo no sobrado, esperando. De uma certa maneira todo mundo ficava de dono da casa… A confusão, a promiscuidade era geral. Já mexiam nos armários, nas panelas, tinha gente que fazia café”.
Essa “profanação”, por assim dizer, do sobrado Honório Cota, mostra como Dourado absorveu bem o clima das tragédias gregas (a história de Rosalina é, de certa forma, reatualização da tragédia de Antígona), que mostravam a sina e a maldição de uma determinada família eminente. Para Jean-Pierre Vernant, grosso modo, o miolo das tragédias gregas era o conflito entre o mundo arcaico do mito (representado pela família trágica) e o mundo da pólis, organizando-se como comunidade (representada pelo coro= cidadãos).
O nosso maior romancista vivo soube transportar isso muito bem para um “tamanho mineiro”, para a atmosfera da “vida besta” de uma “cidadezinha qualquer” (essas imagens aparecem num célebre poema do ilustre conterrâneo de Autran, Carlos Drummond de Andrade). Só ficam forçadas as alusões aos pré-socráticos, Heráclito, Zenão e Parmênides que, a meu ver, nada acrescentam à narrativa.
Em compensação, até os personagens parecem imbuídos do teor teatral da trama. Ao enfrentar a cidade nos momentos decisivos, Rosalina sempre parece agir como que diante de uma platéia. Aliás, com relação à Rosalina, um dos pontos mais fascinantes de Ópera dos Mortos é o fato de ela duplicar, em si, o amálgama do sobrado: este era uma construção térrea, feita inicialmente pelo brutal e misterioso fundador da família, Lucas Procópio; o segundo andar foi acrescentado pelo filho, João Capistrano, de personalidade oposta ao pai; e a casa ficou com os dois estilos de personalidade em seu traçado.
Ao se entregar a Juca Passarinho, Rosalina dicotomiza-se como o sobrado: de dia, ela se mantém senhorial e distante, como João Capisgtrano; à noite, ela perde todas as amarras, como o despótico e desregrado Lucas Procópio. Dessa forma, também a relação entre ela e o agregado assume um caráter “ritual”.
E o desenvolvimento da obra de Autran Dourado tornou ainda mais complexa e instigante a história da família mais ilustre de Duas Pontes. Dois outros romances “completaram” (se possível) o quadro: Lucas Procópio (1985) e Um cavalheiro de antigamente (1992). No primeiro, ficamos sabendo que Lucas Procópio é, na verdade, um impostor: seu nome era Pedro Chaves e ele era um mero feitor, que roubara identidade e fortuna do verdadeiro Lucas Procópio.
A grande ironia embutida no destino da família Honório Cota é que João Capistrano, filho do falso Lucas Procópio, cresceu desenvolvendo uma personalidade parecida com a do verdadeiro, assassinado pelo pai. O que prova que, como já sabiam os gregos, e volta-se a ver nos cafundós de Minas, o destino sempre acaba se cumprindo, de uma forma ou de outra.




