Sempre admirei Sophia de Melo Breyner como escritora e descobri há pouco tempo este conto que nos fala de uma Gata Borralheira dos tempos modernos. Publicado em 1984, este conto remete-nos para uma história muito mais antiga do que poderíamos supor. "Uma das primeiras variantes da história surgiu na China, em 860 a.C. Depois, na Grécia Antiga, Strabo (63 a.C. - 24 d.C.) escreveu sobre uma escrava forçada a casar com o rei do Egito." Foi passando de geração em geração, de boca em boca e, acaba por chegar a Itália durante o "século XVII." Embora apresentando algumas diferenças, este conto popular é bastante semelhante ao que "parece ter inspirado a versão publicada por Giambattista Basile em 1634." Mas será Charles Perrault, um francês que foi considerado o "pai da literatura infantil", quem acaba por escrever "a variante que se tornou mais conhecida entre o público."

É "no século XIX," que "os incomparáveis irmãos Grimm, verdadeiras autoridades em matéria de contos de fadas," escrevem e publicam a sua versão que, como sabemos, é bem "mais sombria."

Tal como no original, podemos dizer que se trata de uma história de "amor à primeira vista, que também de temas complexos como a negligência e o abuso familiar." No entanto, nesta versão de Sophia, destaca-se um outro sentimento importante, a inveja e a vaidade. Lúcia, a personagem principal deste conto, é uma jovem que perdeu a mãe e que vive com o pai, "os dois irmãos" e "as velhas criadas faladoras." Lúcia frequenta um colégio e, chegando a data de uma importante festa, ela vê-se obrigada a ir usando um velho vestido que já tinha pertencido à sua madrinha e uns sapatos mal arranjados, que lhe caíam dos pés. Esta madrinha representa para Lúcia uma figura maternal, que a apoia e que, até a convida para com ela ir viver.

Está triste e desconfortável, e isso acaba por ser notado por algumas raparigas que falam sobre ela e riem da sua figura.

Na festa, uma dessas raparigas aproxima-se dela, aconselhando-a a não se olhar num determinado espelho. Mais tarde, Lúcia conhece um rapaz que a convida para dançar, mas os elogios que ele lhe faz, não chegam a ser suficientes para apagar o momento em que um dos seus sapatos lhe cai do pé. A vergonha é tanta que ela continua a dançar sem sequer dizer que o sapato é seu.

Perdida na sua dor e tristeza, ela começa a recordar as palavras da madrinha que a tinha convidado para sua casa, onde talvez viesse a ter uma vida um pouco mais desafogada. Cresce e casa-se com um homem rico. Passados vários anos, Lúcia acaba por regressar àquela mesma casa onde, anos antes, a festa tinha acontecido e onde ela se sentira tão triste, envergonhada e exposta.Desta vez, no entanto, ela aparece com um belo vestido de gala, uma postura tranquila e um par de sapatos forrados a diamantes que causam inveja a todos os que a admiram.

Feliz, Lúcia volta a entrar na sala onde anos antes se tinha sentido mal ao olhar para os espelhos que forravam as paredes. Só que desta vez, em lugar de refletirem a sua imagem real e atual, surge a sua imagem juvenil, com o mesmo vestido lilás de há anos antes. Naquele momento, um homem entra e pede-lhe um dos seus sapatos de diamantes, oferendo-lhe em troca o velho "sapato de farrapos" que, anos antes, ela tinha perdido na festa.

Num final triste, mas que é caraterística dos antigos contos de fadas (os reais, não os da Disney), Lúcia é então encontrada morta na varanda, na manhã seguinte. Num pé, tem um sapato de diamantes e, no outro, um velho sapato de "aspeto miserável, roto e coberto de manchas esbranquiçadas de bolor!"

Aconselho a leitura deste e de outros contos de Sophia de Melo Breyner e, claro a pesquisarem mais sobre os contos de fadas, como estes evoluíram e chegaram aos nossos dias, adaptando-se à realidade cultural dos locais e épocas por onde foram passando.

Fontes:

https://www.culturagenial.com/cinderela/