Fotografia da minha autoria

«Mas ela sabia que essa segurança era temporária. 

O futuro estava a ir ao seu encontro, apesar de ela estar a fugir dele (...)»

Gatilhos: Morte, Luto, Sexismo, Cenas Explícitas

A capa do livro de Dana Schwartz não passa despercebida e tinha uma vaga ideia do que retratava. Embora quisesse lê-lo, ainda não tinha sentido impulso suficiente para o passar à frente de outras histórias... até que a Joana da Silva o selecionou para as leituras de fevereiro do Livra-te e percebi que não podia adiar mais.

 uma história de amor

Anatomia transporta-nos para a capital da Escócia, em 1870, quando os caminhos de Hazel e Jack se cruzam de um modo imprevisível, talvez até bizarro: é que ela pertence a uma família aristocrata, com casamento praticamente marcado deste a infância, a ambicionar ser médica, enquanto ele «mal ganha para comer», sobrevivendo como ladrão de corpos, que vende para a Sociedade Real de Anatomistas de Edimburgo.

O cunho histórico que nos contextualiza quer em relação à época, quer em relação à sociedade e à componente médica, revelou-se fluído, bem encadeado e com a energia certa para querermos descobrir mais. Afinal, estamos perante um quadro machista e com desigualdades sociais profundas. Uma mulher ousar seguir medicina nem sequer deveria ser uma hipótese, mas a protagonista procurou quebrar esses preconceitos.

Honestamente, não sabia o que esperar, mas dei por mim a ler freneticamente, a unir pistas e a traçar teorias, porque é mesmo interessante a forma como a autora desencadeia a ação, como constrói as personagens e as confronta com uma série de questões. Através de Hazel, explora tudo aquilo que é esperado de uma mulher. Através de Jack, explora a linha tão ténue entre a integridade moral e a necessidade de pôr comida na mesa. Mas o espectro não se limita a estas personagens: há outros rostos que a permitem discorrer sobre negligência, luto, injustiça, autoridade, abuso de poder, amor e lealdade. E interliga-se tudo com naturalidade.

Outra reflexão que achei fascinante prende-se com o quanto julgamos conhecer as pessoas e como o nosso percurso pode ser moldado por alguém que admiramos - isto pode ser problemático, se ainda não soubermos quem somos ou se duvidarmos da nossa voz. E estas imagens ajudaram a intensificar a aura sombria.

Anatomia é, de facto, uma história de amor, mas penso que não se restringe ao amor romântico. Embora se tenha encaminhado para um desfecho que me parece um pouco desfasado de tudo o que aconteceu antes, consigo entendê-lo, até porque explora um certo complexo de Deus, e creio que torna intrigante o contraste entre a ciência e o realismo mágico. Este livro, para mim, brilha pela personagem principal, pelo vínculo construído entre Hazel e Jack e, acima de tudo, por oscilar entre o macabro e o belo, entre a opressão e o progresso e por mostrar os efeitos da perdão e da redenção. Aguardo pela tradução do segundo volume.

Nota: Esta publicação contém links de afiliada da Wook e da Bertrand