imagem/ Um broto; da horta da colunista

O ano logo vem, mas o novo está atrasado. Enquanto isso, a natureza está parindo as mágoas que plantamos

Sibélia Zanon*

— Mãe, quando chega o ano novo?

Às vezes gosto de escutar a mudança vindo de mansinho até que os fogos aceleram a paz e enfartam doze passarinhos. Esse ano ainda não sei se vou assistir o ano novo chegar em carne ou em sonho. No sonho pode ser melhor porque o meu travesseiro é feito de penas.

— Mãe, quando chega o ano novo?

Tenho visto as paredes tentando se despir das memórias. Nacos de tinta descolando aqui e ali. 

Mesmo assim, parece que o ano não quer ir embora. Ele confessou que pretende se arrastar por janeiro, feito doente terminal. Disse que não está conseguindo se desvenciliar do fio da vida, anda irmanado aos sons da UTI e à seiva dos antibióticos.

— Mãe, quando chega o ano novo?

O ano logo vem, mas o novo está atrasado. Enquanto isso, a natureza está parindo as mágoas que plantamos. A Terra pulsa e, por vezes, expulsa o que não se encaixa na maré dos tempos. O caos se faz feito faxina nutriDORa.

— Manhêêêê!?

Tem um bem-te-vi cantando tão alto aqui do meu lado que ele até desafinou. Estamos chamando o ano novo com ternura ou desespero?

— Mãe, quando chega o ano novo?

Teve tempo em que os pratos pesados e de difícil digestão – insistentemente elaborados nos finais de ano – tinham a capacidade de garantir que o ano virasse. 

Hoje, a difícil digestão é conversa intimista.Vai regurgitar o que não mais harmoniza nas entranhas?

— Vai digerir ingredientes por obrigação? 

O conformismo é a alface da vida adulta. 

Os nutricionistas dizem que alface faz bem.

— Mãe, quando chega o ano novo?

Estou longe das sete ondas. Vejo muros. Mas, e se eu olhar para o chão e imaginar as camadas subterrâneas e as conversas entre as raízes? E se eu olhar para cima e sonhar as camadas das nuvens e seus ventos? Pensamos sempre na horizontal, mas na vertical também há mergulhos. 

— Mãe, quando chega o ano novo?

A rede de acontecimentos e de pessoas estão te enlevando ou enredando? O novo começa quando as redes embalam sem aprisionar.

— Mãe, quando chega o ano novo?

Ele plantou abobrinhas para nutrir o riso. Brotou a primeira semente e ele sentiu uma alegria exagerada. Eu não achei ela exagerada. Ter o broto como espanto é medida do novo. 

— Mãe, quando chega o ano novo?

Quando soubermos chorar na chuva por felicidade.

— Mãe, quando chega o ano novo?

Uma semente e uma gota e um girino e um dente-de-leão e uma fonte e um feto e uma ternura continuam germinando. Um dia vai chegar.

— Mãe, quando chega o ano novo?

  1. Quando o ano velho for digerido
  2. Quando você decidir viver o agora
  3. Essa pergunta é irrelevante
  4. Todas as anteriores

— Mãe, quando chega o ano novo?

Quando puder converter as penas do travesseiro em asas.

*É jornalista e escritora