fotos/ o deserto do Saara pela colunista Sem leite, sem anestesia, sem amanhã. Só o agora. Que é um sopro. Um último. Um só. Sibélia Zanon A mãe O verão ia chegando e a manhã era erguida cada vez mais cedo. Não havia segunda chance para os insones. Todos sabiam que se não dormissem logo, não dormiriam mais. Antes das 4 da manhã começavam os sons. Já não eram pássaros, eram instrumentos de sopro que anunciavam qualquer coisa. Ela tinha medo das frestas da janela. O vento uivava. A palavra se erguia feito nó enganado, que apartava e separava em vez de unir. Uma revoada de necessidades cutucava o seu corpo, o de carne e o de dentro. Levantou cansada. Fez um café e sentou-se à mesa. Bebeu um gole do café preto como quem bebe uma memória, uma ausência, um grito, um corpo. O jornal sussurrava em cima da mesa: Sem leite, sem anestesia, sem amanhã. Só o agora. Que é um sopro. Um último. Um só.A criança O verão ia chegando e a manhã se levantava cedo. O sol tinha muitas vontades. Sabiás faziam orquestra. A brisa balançava os verdes, regendo performance nas folhas da árvore. O menino viu a estripulia pela fresta da janela e pulou da cama como se só existisse o agora. A vida era urgente e acontecia do lado de fora. Correu até a cozinha, onde encontrou a mãe lendo o jornal e tomando o café. O laço – Mãe, mãe, me ajuda? – Oi querido, dormiu bem? O menino ergueu a perna e pousou o tênis no colo da mãe. – Vamos fazer juntos. Você lembra como era? – Coelho. – Isso! Uma orelha, duas orelhas. As orelhas se juntam num… Mal a mãe apertou o laço e o outro pé já estava a postos. Enquanto ela finalizava, o menino a abraçou apressado e saiu correndo para o quintal. Deixou a porta aberta. Um rastro de sol ficou pela cozinha.