Depois de ler Wislawa Szymborska e Ivo Ándritch, desejo de coração que o Nobel seja concedido a algum escritor de que nunca se ouviu falar, de uma língua minoritária, o que geralmente irrita os comentadores (pois como vão recorrer a informações e resenhas já mastigadas e prontas para a prensa?, e como ficam os comentários-padrão?).
Afinal, se não fosse o prêmio, quais as possibilidades de o leitor de língua portuguesa ter acesso à obra da poeta polonesa ou do ficcionista sérvio, ambos absolutamente admiráveis?
Todo mundo mais ou menos bem-informado conhece (nem que seja de ouvir falar) Vargas Llosa, para citar um premiado, ou Philip Roth, para falar de um dos “eternos candidatos”. Há cinquenta anos, em 1962, todo mundo sabia quem era John Steinbeck e já ouvira falar de seus títulos mais conhecidos, como As vinhas da ira, Ratos e Homens, A leste do Éden. muito ao contrário do que acontecera em 1961 (quando Ándritch foi o vencedor) e aconteceria em 19623 (com Seferis).
Isso me leva a uma segunda proposição (se dermos algum valor ao prêmio, questão que a minha primeira proposição torna irrelevante): como ainda somos remotos, minoritários, em termos de língua e literatura, no mundo, é urgente que se escolha um autor brasileiro (ou português, ou africano de expressão portuguesa).
Ao pensar naqueles que foram manifestamente indicados para o Nobel nos últimos anos, Ariano Suassuna, Lêdo Ivo ou Ferreira Gullar, chama a atenção a sua provecta idade. A morte do grande Autran Dourado, no dia 30 de setembro, aos 86 anos, fez com que a “ficha caísse” para mim: nossos autores mais canônicos estão muito velhos, e começam a ir-se sem que vejamos uma premiação expressiva. Dalton Trevisan (que para mim, seria o natural vencedor num páreo nacional) ganhou o Camões agora, e tem 87 anos. Macróbios, em maior ou menor medida, estão Lygia Fagundes Telles, Carlos Nejar, Adélia Prado, João Ubaldo Ribeiro, Manoel de Barros, Raduan Nassar, Rubem Fonseca (pelo menos, pelos seus contos geniais) os nomes que imediatamente vêm à memória como os clássicos que ainda estão entre nós. Até mesmo João Gilberto Noll e Chico Buarque (que me desculpe Bob Dylan, contudo o nosso Chico merece mais o Nobel) já chegaram a uma idade “venerável”.
Só espero que, chegando a vez do Brasil, não escolham a Embaixadora dos Países Ibéricos, a Xerezade do Paraguai, a Instituição da “Literatura” em pessoa: Nélida Piñon. Ou então José Sarney, já que ele sempre teve seus admiradores (Lévi-Strauss, por exemplo), que não devem conhecer a vida severina a que ele e sua família condenou o povo do Maranhão por décadas e décadas.
Em Portugal, António Lobo Antunes, que com justiça pode ser considerado um dos três ou quatro maiores romancistas do mundo. E sua companheira de geração, Lídia Jorge, que pouco fica atrás (creio que, com seu imenso talento, nomes do naipe de José Luís Peixoto e Gonçalo M. Tavares ainda não são “cogitáveis”).
E por que não nos surpreender um nome africano? É lógico que todo mundo pensa primeiro em Mia Couto, e seria esplêndido. Mas que tal um autor absolutamente inesperado, que represente a língua portuguesa, mas represente uma novidade, algo ainda não “domesticado”? Afinal, é um território quase inexplorado.
O que me leva à minha terceira proposição: se não fizesse justiça à língua portuguesa, que pelo menos o Nobel saísse um pouco do circuito europeu, sem precisar se render aos Estados Unidos (apesar de Don DeLillo, Joyce Carol Oates, o próprio Roth…), apesar de todos os nomes que apreciamos e admiramos, entre eles o grande Salman Rushdie, o qual felizmente sobreviveu até agora a quase um quarto de século de fatwa, a sentença de morte pronunciada pelo aitolá Khomeini (e será que o albanês Ismail Kadaré pode ser considerado do circuito europeu, periférico como é seu país, ou então o estupendo escritor sérvio Milorad Pávitch, autor de Dicionário Kasar?).
Dizem que esse ano será a vez de Haruki Murakami. Muito bem. Aprecio Murakami,(Após o anoitecer, Minha querida Sputnik) e só dois japoneses até hoje foram premiados (Kawabata & Oe), e ele está totalmente afinado com a “modernidade líquida”. Mas também temos o genial Chinua Achebe, um romancista que agora o Brasil está descobrindo (pelo menos, não precisamos esperar por um Nobel para que O mundo se despedaça & A flecha de Deus fossem traduzidos). Será que a tragédia da Síria não inclinaria a balança para Adonis, que também agora—com grande tardança—foi traduzido no Brasil)?
“Você já viu a mulher
como carrega o corpo do outono?
Primeiro ela mistura o rosto e a calçada
depois tece um vestido com os fios
da chuva
as pessoas
na cinza da rua
são brasa apagada” (trad. Michel Sleiman)
E será que nossa antipatia contínua pelos dirigentes do estado de Israel impedirá de forma definitiva a premiação de Amós Oz, um dos grandes romancistas das últimas décadas?
Ou será que, Murakami e o Japão à parte, a Ásia nos dará um nome surpreendente, e que nos trará o sopro de beleza e renovação do prazer de leitura que aquela senhora polonesa, falecida este ano, trouxe aos brasileiros no ano passado?
“Para mim, o mais importante na tragédia é o sexto ato:
o ressuscitar dos mortos das cenas de batalha,
o ajeitar das perucas e dos trajes,
a faca arrancada do peito,
a corda tirada do pescoço,
o perfilar-se entre os vivos
de frente para o público.
As reverências individuais e coletivas:
a mão pálida sobre o peito ferido,
as mesuras do suicida,
o acenar da cabeça cortada.
As reverências em pares:
a fúria dá o braço à brandura,
a vítima lança um olhar doce ao carrasco,
o rebelde caminha sem rancor ao lado do tirano.
O pisar na eternidade com a ponta da botina dourada.
A moral varrida com a aba do chapéu.
A incorrigível disposição de amanhã começar de novo.
A entrada em fileira dos que morreram muito antes,
nos atos três e quatro, ou nos entreatos.
A volta milagrosa dos que sumiram sem vestígios.
Pensar que, pacientes, esperavam nos bastidores
sem tirar os trajes,
sem remover a maquiagem,
me comove mais que as tiradas da tragédia.
Mas o mais sublime é o baixar da cortina
e o que ainda se avista pela fresta:
aqui uma mão se estende para pegar as flores,
acolá outra apanha a espada caída.
Por fim uma terceira mão, invisível,
cumpre o seu dever:
me aperta a garganta.” (trad. Regina Przybycien).
(O prêmio Nobel de Literatura será anunciado esta semana)













