(...) «A minha casa ficava na esquina da Place Sainte-Geneviève, ao alto duma rua íngreme e tortuosa, do tempo estreito dos prebostes. Dum lado havia assim todo o luxo esplêndido dos séculos, do outro a fácies sombria que simultâneamente revestiram passando. Face à montanha do Panthéon, de cunhais babilónicos e tiara de colunas, alcandoravam-se o rectângulo da torre lisa de Clóvis, a renda gótico-florentina de Saint-Etienne du Mont, a Biblioteca dos Genoveses, de frontaria placidamente conventual, uma escola, a mairie, e prédios altos -- armazéns de gente.

Durante a noite, a praça dormia em pomposo silêncio, raramente quebrantado. Debruçados à janela, com a cabeça a tocar a pele de fera, mosqueada a fogo, do céu nocturno de Paris, tanto a Surflamme como eu muitas vezes devaneávamos. Ela passava-me o braço tépido em torno do pescoço, e sentia-me como que ancorado no mar profundo, largo e calmo dum nirvana.

  -- Quando olho lá para baixo -- dizia ela -- e vejo tanta casa, tanta luz, tantas sombras, figura-se-me que estou num píncaro como aquele aonde o Diabo conduziu o bom Senhor Jesus. E também me sinto tentada.

  -- E quem é o tentador? Paris?... Eu?...

  -- Ninguém. Sinto um não sei quê que me tortura e me leva para longe de mim. Mas o que é e para onde, ignoro-o.»...

(continua)