Uma troca de ideias no ler por aí sobre livros proibidos  e um texto muito bonito deixado pela Numa de Letra com o título: Kids Should Read Whatever They Want, Whenever They Want. A autora fala do porquê de deixar os seus filhos no futuro lerem o que quiserem. É uma questão pertinente se pensarmos, por exemplo, nessas listas que todos os anos saem na América com os títulos proibidos nas bibliotecas. O pessoal que vive comigo não é leitor, mas nunca me puseram restrições e desde que não fosse muito caro podia optar à vontade guiada pelo meu próprio senso. Às vezes lá calhava algo menos apropriado. São experiências que contribuem para a nossa formação enquanto leitores e apesar de ter pena de não ter lido alguns livros nessa altura acho que a liberdade é das coisas mais importantes que se pode dar. Quando tiver uma casa minha vai haver livros espalhados por todo o lado e havendo crianças que fazer? Arrancar logo o livro das mãos e esconder no cimo da estante? 

Muitas vezes proibir tem o efeito inverso: não mexas no fogão e passados uns minutos lá se está a colocar a pequena mão debaixo da água fria. Mas também nada de grandioso tinha acontecido na História da humanidade se não fosse essa persistência. Corremos o risco de criar bichos de sete cabeças de coisas que não são, como tabus à volta de factos da vida envolvendo pénis dentro de vaginas. É bem difícil se uma pessoa tem uma tradição familiar muito restrita...Mas as crianças podem surpreender pela forma clara como olham o mundo. Será melhor explicar ou proibir? Não queremos que os miúdos aprendam a pensar por si? Claro que temos o direito de não querer o livro x nas mãos deles, mas não vai ser mais útil à sua formação perceber o porquê dessa posição? Vai chegar a uma altura em que a criança amorosa vai ter de tomar as suas próprias decisões por isso não é melhor guiá-la no sentido de perceber as coisas por si? Por exemplo: explicar porque não se pode bater no cão em vez de mandar um par de berros. Não se corre o risco de ele nunca perceber porque é que bater no cão é errado? Afastar os livros seja pela razão que for também pode às vezes criar resistências

A ideia de que os livros são tão sagrados ou perigosos que não podem ser tocados (mais uma razão pessoal para não procriar: não gosto que mexam na minha estante). Não é certo que os miúdos virem leitores no futuro, mas é bom quando eles pegam nos livros, folheiam, conhecem as personagens e se envolvem: uma das imagens mais bonitas que vi nas minhas viagens de comboio foi a de uma criança a ler. Podem haver excepções: livros como o In Cold BloodClockwork Orange ou os do Palahniuk...A posição da autora parece-me válida - if my kids found it elsewhere and read it, I couldn’t stop them. But I won’t be the one supplying it. Há uma diferença entre acharem que o livro vos ofende e quererem linchar o autor. Concordo que algumas questões como assédio, igualdade, racismo...Podem surgir naturalmente da leitura de livros e ser um mote para conversas. 

Talvez possa parecer chocante ver um jovem ler a Lolita - mas levanta questões sérias sobre abuso e sexualização, O Bell Jar é um livro duro mas que fala de feminismo e direitos das mulheres; o Não Matem a Cotovia...É muito positivo quando se tem alguém com quem discutir este tipo de assuntos. Portanto sim, acho que eles devem ler de tudo. E experimentar e desistir e ter vontade de atirar o livro pela janela e a seguir ler de novo. Nunca se sabe o que poderão ser no futuro se permitirmos que a sua imaginação seja estimulada. Escritores, realizadores...Ou simplesmente pessoas mais felizes.