2023 trouxe-nos mais livros proibidos, censurados, rasurados. Recomendo esta lista de livros proibidos em escolas ou estados norte-americanos para quem acha que este é um problema de somenos importância. Confesso que cada vez que vejo uma lista destas (e tem sido demasiado recorrente) fico bastante assustada, triste e sem esperança no futuro. E nem o “o fruto proibido é o mais apetecido” me tira este sentimento de derrota.

Censurar, banir, livros e negar, a crianças, o direito de os lerem devia ser considerado “maus-tratos” mas a verdade é que são pseudo-educadores que o fazem. É irrelevante a possibilidade das crianças terem acesso a esse livro fora da escola ou em adultos. Se em casa lhes é ensinado que os livros banidos são, afinal, leituras interessantes e importantes, então a confiança na escola, no conhecimento e aprendizagem fica abalada para sempre. Se em casa, essa censura é apoiada, então está a ser sonegada a esta miudagem a oportunidade de aprender sobre diferença e liberdade. Porque todos os livros banidos são sobre diferença e liberdade. E eu já não caio na asneira de achar que isto é só maluquice dos americanos. Isto cai-nos em cima num instante. E mesmo que seja apenas por lá, isso vai-nos cair em cima num instante.

Dizer que um livro não é adequado a uma determinada idade é uma coisa – para isso servem os livros recomendados – mas isto é outra coisa. Isto é uma tentativa muito óbvia de manipulação de massas. A literacia, o conhecimento e a capacidade crítica são as armas mais importantes em qualquer sociedade.

É verdade que a “limpeza” (não, não vou usar a palavra “branqueamento”) que está a ser feita a alguns livros não está a ajudar. Sou toda a favor de mudarmos a linguagem, de não usar determinadas expressões que já não são aceitáveis hoje em dia, pela carga histórica que carregam, pelos preconceitos que perpetuam e pela mágoa que causam. Isto para mim é apenas respeito pelo próximo. Mas não poso concordar que se reescreva nem a História nem os livros – interpretar (quer a História, quer os livros), analisar, identificar os erros para que não os repitamos. Usar o passado para melhorar o futuro e não o contrário.  

Quero acreditar que nós, leitores, teremos uma palavra a dizer (bem, no próximo dia 10 de Março, teremos certamente e não é irrelevante a escolha) sempre que comprarmos um livro, que oferecermos um livro, que divulguemos um livro. Ler está a tornar-se uma forma de resistência. Aliás, ler é hoje, como sempre foi, uma forma de resistência.