Procon poético
cotidiano, poesia, observação, vida urbana, reflexão
Diante do desconhecido, emudeço dentro de mim /CC, storker Sibélia Zanon* Chego em casa e uma borboleta amarela enorme se equilibra em cima da flor vermelha mínima enquanto os pássaros insistem em mergulhar numa bromélia de águas rasas. A vida sempre por um fio. Hoje eu gostaria de pedir uma licença poética para reclamar. Reclamar da poesia, por ela insistir em se expor, grudar e infiltrar sem critérios, todo o tempo, em todo lugar. Saio cedo e deparo com os fios se emaranhando de forma desordenada na cabeça do poste, o que gera alta tensão no jorro de ideias do dia. Na calçada, a sola do sapato gruda no chiclete, causando um apego sem precedência entre meus pés e o chão – jeito grudento e eficaz de aterrar no agora. Cruzo com embalagens de quentinha largadas embaixo dos bancos do ponto de ônibus. Elas me lembram que a padaria fica ali do lado e chega a pausa do café, que é poesia por si só porque enquanto bebo, leio umazinha. E enquanto leio, reclamo o excesso de exatidão poética quando a metáfora agarra a verdade do fato mais do que qualquer construção denotativa o faria. Um papel de prestígio é arrastado pelo vento, avisando que a notoriedade é passageira e, caído na sarjeta, está um controle remoto. Quem perdeu o controle em plena quarta-feira? Se fosse sexta, ainda seria compreensível. Na sala de espera 2 do laboratório de exames, os quadros são tortos e vermelhos, da cor do sangue, decoração de caráter bastante explicativa. O prédio do laboratório faz divisa com o cemitério, o que parece muito prático. Agarrado ao corrimão, um homem sobe os degraus bem devagar, carregando uma mochila preta. Ninguém sabe se o peso que ele carrega vem da mochila, da idade, ou de alguma doença prestes a ser diagnosticada. Chego em casa e uma borboleta amarela enorme se equilibra em cima da flor vermelha mínima enquanto os pássaros insistem em mergulhar numa bromélia de águas rasas. A vida sempre por um fio. Pego um par de meias limpas na gaveta do armário e dentro de uma delas há uma semente de pitanga. Mas, o que é isso? Como você se infiltrou aqui? Lembro que alegria rima com burocracia e isso me dá raiva porque logo mais vou ter que me ocupar com a segunda e essa rima é pobre demais. Peço desculpas por ter acionado o Procon de forma impulsiva e deixo a poesia continuar me salvando o dia. *É jornalista, escritora e autora de Espiando pela Fresta
Texto originalmente publicado em Revista Fina