No canto do olhar, o movimento súbito e inesperado chamou minha atenção. Virei-me para a janela e, no meio deste dia frio e de pesadas nuvens que se deslocavam com a indolência dos eternos, enxerguei as cores vivas de uma borboleta. Encostada no vidro, eu não sabia se ela queria entrar ou fugir.  O bater forte das asas mostra a instabilidade do equilíbrio; venta lá fora e estamos no oitavo andar. Nenhuma borboleta deveria chegar a esta altura. Nenhuma vida deveria entrar por esta janela, e este foi o primeiro sentido que tirei de tal visão: a borboleta não deveria estar ali e, ainda assim, estava.

Mesmo sem ver o vento, eu o imagino implacável e cruel. A borboleta desliza de um lado para o outro, mexendo as asas com rapidez, entrando nos vácuos e soluços do ar que se torna movimento ao seu redor, mas, novamente contra as possibilidades, ela mantém o seu centro. Sabe que está se cansando e sabe que, ao final, acabará sendo arrastada, mas continua ali, lutando, e assim eu cheguei ao segundo sentido possível: não interessa a inexorabilidade do adversário, são as pequenas vitórias que valem a pena.

Eu trabalho em uma região onde o concreto é a norma e a natureza, uma exceção. Não tenho a mínima ideia de como uma borboleta foi nascer no meio de cenário tão inóspito: estou cercado por prédios e a poluição gruda em mim como uma segunda pele. No meio daquele lugar insosso, as cores da borboleta assemelham-se a uma bofetada de vida, o que me leva a uma terceira possibilidade de interpretação: o Destino não nos deixa escolher onde nascemos, mas permite que a nossa presença deturpe e escandalize o espaço do outro.

A fragilidade da borboleta também assusta. Imagino que, a qualquer momento, a navalha súbita de um vento repleto de traição irá destroçá-la. Não sei como ela se mantém no ar, toda a sua existência é uma apologia à impossibilidade. Apesar de tudo, a pequena borboleta resiste e não se rende, trazendo outro sentido para a ilogicidade do seu agir: nos menores corpos, podem existir os mais aguerridos espíritos.

Ao redor do meu prédio, existem outros. Pousadas nos beirais, vejo pombas espreitando a cidade, cuidando todo e qualquer movimento em busca de comida, qualquer comida. Ainda não viram a borboleta, mas, assim que a detectarem, cairão sobre ela com bicos e garras implacáveis. Se o vento não quebrar a sua vontade, se o cenário não a desanimar, se ela resistir, seu futuro será sombrio. Andar no meio de inimigos sempre é perigoso, o que me conduz a outra ideia possível: viver cercado de perigo é condição imprescindível para qualquer ser vivo respeitar a seiva que corre no seu espírito.

Eu sei, e todos sabem, que a vida da borboleta é curta. Ela dura algumas horas. O fato desta borboleta ter decidido passar um tempo da sua fugacidade junto à minha janela, lutando contra o vento, contra o frio, contra a ameaça das pombas, contra todo um sistema que deseja que ela morra, não pode ser uma coincidência. Precisa significar alguma coisa. E a resposta mais óbvia é outro possível sentido para uma parábola que não se concretizará: a borboleta busca a imortalidade improvável, busca sair do mundo real que a esmaga para se transmutar de novo, desta vez virando um texto, um local onde sua existência tão frágil ganhará concretude e nunca será questionada.

Talvez a borboleta esteja me usando para burlar a morte, e este é o sentido final de todas as histórias: viver para enganar o próprio fim.

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Publicado por Gustavo

Advogado, escritor e mestre em Letras - mas não nesta ordem. Autor de "O homem despedaçado", livro de contos lançado pela Dublinense em 2011. Ver todos os posts de Gustavo