Segundo poema da alienação
Dai-me o que de mim resta
para que, incompleto,
me perca na contemplação
do tempo por encontrar
da viagem por percorrer
Dai-me a estrela ardente
a picada sem destino
a luz mortiça
desvendando o alfabeto
convoquem todas as crianças
e encham-se de rostos
as janelas das escolas
Devolvam-me ao corpo ferido
de onde se escoou o sangue
de um companheiro fardado
Em redor da sombra
ergam-se paredes de claridade
estilhace-se em mil pedaços
o meu nome, minha palavra
para que na transpiração dos corpos
o poema produza
e se reconstrua
como veia que reencontra o corpo.
Mia Couto, escritor moçambicano, nascido na Beira em 1955. É um escritor de prestígio e um dos escritores moçambicanos mais galardoados. Ganhou importantes prémios tais como o Prémio Vergílio Ferreira, o Prémio União Latina de Literaturas Românicas ou o Prémio Zaffari & Bourbon de Literatura, na Jornada Nacional de Literatura. Na poesia, destacamos o seu livro Raiz de Orvalho e Outros Poemas, publicado pela Editorial Caminho.