UMA DÚZIA DE LIVROS // JULHO
literatura moçambicana, realismo mágico africano, guerra civil de Moçambique, identidade pós-colonial, desafios de leitura literária
Fotografia da minha autoria Tema: Um livro do ano em que nascemos O estreitar de laços pode deixar-nos mais perto das nossas raízes. E é sempre curiosa a maneira como a literatura nos vincula à nossa história e ao nosso tempo. Recuso-me a aceitar que somos uma só estrada, porém, cada fragmento da nossa alma é influenciado - consciente ou inconscientemente - pelo contexto, pelo núcleo emocional e pela geração à qual pertencemos. Eu nasci em 1992 e, embora seja um processo subjetivo, queria descobrir mais da sua essência. E os livros são uma janela aberta para essa possibilidade. O meu compromisso literário não tem muitas regras, mas contempla alguns desafios particulares. Um deles prendia-se com a minha vontade de ler obras publicadas no meu ano de nascimento, como mencionei nesta publicação. Impulsionada pelo clube da Rita da Nova - Uma Dúzia de Livros -, e após alguma ponderação, optei por complexificar o tema de julho, aventurando-me num autor que fui conhecendo através de passagens soltas e que me foi despertando bastante interesse. Assim, abraçando a novidade, embarquei no mundo de Mia Couto. Terra Sonâmbula transborda caos e humanidade. E é de um realismo descritivo que nos desarma, uma vez que nos coloca em permanente análise - interna e externa. Esta narrativa, que corresponde ao primeiro romance do escritor, é envolta num cenário de guerra, retratando um período de sucessivos conflitos armados contra o domínio português e pela independência do país. Portanto, tem um peso histórico impossível de negar, até porque, em simultâneo, mantém o leitor em contacto com as tradições, as crenças, a linguagem e a própria identidade de uma sociedade fechada e, por vezes, preconceituosa - que ficamos a conhecer nas entrelinhas. Deambulando entre os destroços, as memórias, o passado e o presente, compreendemos o quanto é ténue a linha que separa a realidade da ficção. Esta obra é, sobretudo, feita de pessoas e de emoções. Por essa razão, cruzamo-nos com personagens «nómadas, desenraízadas, como se a terra lhes fugisse». E são estes protagonistas que, dotados de uma enorme empatia, procuram gerir a rejeição, a orfandade, a ausência, a fome, a corrupção e a apropriação de riqueza. Acompanhado os sonhos de dois jovens, sentimo-nos a desbravar histórias dentro de histórias, como se o enredo fosse uma autêntica Matrioska. E é com este sentido profundo de sobrevivência, de ambivalência, que comprovamos que pode existir atrocidade sem a aparente violência. Além disso, aliando o «realismo mágico à arte narrativa tradicional africana», encontramos sempre uma espécie de dualidade: Guerra-Sonho. Vida-Morte. Caos-Esperança. Terra Sonâmbula é um livro que emociona, porque a escrita poética de Mia Couto transparece muita sensibilidade. Paralelamente, prevalece um caráter cheio de simbolismo e de antiguidade, tornando a leitura mais rica. Caracterizando-se, ainda, pela constante brincadeira com as palavras, esta história não carece de contexto. Privilegiando a terra, a visão ecológica e a presença dos mortos no mundo dos vivos, potencia uma viagem de descoberta, com um final em aberto. Deixo-vos, agora, com algumas citações: «De dia já não saímos, de noite não sonhávamos. O sonho é o olho da vida. Nós estávamos cegos» [p:26]; «Fui eu que te trouxe, fui eu que te chamei. Quando queremos que vocês, os da luz, venham até nós, espetamos uma semente no teto do mundo. Tu foste um que semeámos, nasceste da nossa vontade. Eu sabia que vinhas» [p:134]; «- O que aprendeste debaixo da casca desse mundo? - Eu quero voltar, estou cansado. Eu agora sei quem és, me ajude a voltar... - O que andas a fazer com um caderno, escreves o quê? - Nem sei, pai. Escrevo conforme vou sonhando» [p:297] Nota: O blogue é afiliado da Wook e da Bertrand. Ao adquirirem o[s] artigo[s] através dos links disponibilizados estão a contribuir para o seu crescimento literário - e não só. Obrigada ♥
Texto originalmente publicado em Entre Margens