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Obra levou Boris Pasternak a receber o prêmio Nobel de Literatura dois anos antes de sua morte, aos 60
Matheus Lopes Quirino
O inverno russo não é para qualquer principiante. Mesmo experiente, o cidadão que o vá encarar precisa se munir com maiores provisões do que uma boa reserva da colheita, um casaco de pele de urso ou lenha suficiente para deixar quente um lar. O inverno russo tem seu próprio mistério. Em regiões remotas, quanto mais ao Oriente se for, nos bosques, na tundra, as lendas e histórias fantásticas colaboram com o assombro visual de uma planície branca, intacta, onde impera o vazio. O medo cresce e é cortado somente pelo uivar dos lobos. Se ficar, o bicho pega, se correr, ele come.
E numa dessas casas que o médico Iúri Jivago está, já no finzinho do livro, depois de peregrinar por quilômetros no frio. Esquálido, ele observa os pontos isolados que entonam barulhos estranhos do bosque – ladrões? Caçadores? Monstros? Lobos? Bestas-feras? Resiliente, Jivago volta para si, mas antes olha ao redor e percebe a dimensão do vazio que o corrói no exílio forçado. Nessa altura do campeonato, nada mais resta a fazer se não rebobinar sua própria história, escrever uns versos, ficar de olho nos lobos que espreitam seu chalé.
Rebobinando direto à infância, os Jivago eram uma família abastada. O jovem Iúri cresceu rodeado por babás, comendo do bom e do melhor e tendo acesso à educação de primeira. No final do século 19, início do século 20, a Rússia rumava nos caminhos revolucionários, com revoltas, comícios, assaltos, a complexa política russa, que em breve sofreria reviravoltas, abalaria as estruturas de uma elite arraigada em costumes imperiais, tradições, assim por diante.
É nessa atmosfera que Jivago cresce, esse baque que o movimenta, ao passo que se casa cedo, em busca de estabilidade, é sociável, tem um bom círculo íntimo e exerce sua profissão com paixão. Jivago também escreve. Como importante figura da literatura moderna, o doutor Jivago é uma personagem que constantemente recorre à dúvida, desafia-se, vive um périplo infernal. Como a desventura de Jesus no deserto, tentado a todo momento pelo Diabo, Jivago cruza o deserto branco de neve abalado pela dúvida, pela incerteza dos tempos e o assombro da miséria.
Os caminhos do médico lembram o andar de um pobre diabo fugido de uma zona de guerra, um refugiado em seu próprio país, em busca de alimento essencial e abrigo do frio. Ademais, Jivago tem momentos de ternura intensa, que duram pouco, mas essa chama o acompanha durante todo seu trajeto. O seu motivo final, sua via crúcis, é não deixar a peteca cair e tentar retomar um passado distante. Despois de suas provações, a experiência na pele e a sapiência dos anos que passaram moldam o caráter de um homem que é manancial de saber. Não por ser médico, poeta, bom amigo, mas por ter vivido na miséria e, nela, conseguir forças para escrever alguma poesia.
No volume da Companhia das Letras, o livro de poemas de Iúri Jivago é anexado ao final, depois da trama. A potência poética do personagem é o combustível da obra máxima de Boris Pasternak. Uma conexão absurdamente intensa entre natureza/homem, causa/efeito, magia/realidade, Jivago se apodera da essência de cada objeto que, ao seu redor, sofre escrutínio de seus olhos.
Jivago, quando submetido ao exército, ampara-se na arte, pois a arte salvará o mundo. Contudo, a todo instante, como Sísifo, ele volta à estaca zero. De início, é caro ao personagem admitir o óbvio. Apaixona-se torridamente por Larissa Fiódorovna, e então vive um turbilhão de sentimentos, seja no campo de batalha, seja em seu coração.
Pasternak não dispensa a poesia que emana do banal, aproveita do filete de água que corre de uma pedra ao farfalhar das folhas ocres que varrem o bosque no outono. Sobre a solidão, a companheira definitiva de nosso Sísifo moderno, o autor escreve: “Embora fosse dia e estivesse bem claro, o médico tinha a sensação de fazer noite na escura e densa floresta da sua vida. Tal era a escuridão em sua alma, tal era a sua tristeza”. Pasternak é habilidoso com as palavras, sabe usar da paisagem russa o encanto e a magia que cercam paisagens belas e assustadoras, como os bosques inexplorados e as estepes. Adiante, no mesmo excerto, ele crava: “E a jovem lua, presságio de separação, imagem de solidão, brilhava diante dele, quase à altura de seu rosto”.
Ao escrever uma obra definitiva, que retratava o território russo sem poupar qualquer crítica aos governos comunistas, Boris Pasternak irritou a então URSS e Doutor Jivago ficou à mercê da censura soviética. Mas o livro saiu, primeiramente na Itália, em 1957. A partir daí, ao revelar a miséria da Rússia para o mundo, Pasternak foi perseguido e ameaçado. O governo de Joseph Stálin obrigou o escritor a recusar o prêmio Nobel de literatura, que ganharia no ano seguinte.
Ao retratar os principais eventos da política russa de sua geração, como a queda do Czar, o fim da monarquia, a revolução do proletariado, o fortalecimento do partido comunista, as mobilizações do proletariado e a dificuldade em que o governo se manteve no poder, Boris Pasternak foi considerado traidor da pátria. Proibido em toda a União Soviética, o romance foi celebrado no inimigo e virou filme, em 1965, dirigido por David Lean, com Omar Sharif como Jivago e Julie Christie como Larissa Fiódorovna.

Doutor Jivago
Boris Pasternak
Tradução de Sônia Branco e Aurora Bernardini
Companhia das Letras (2017)
R$ 87,90/ 39,90.
616 páginas