The Lost World and Other Stories
O mote para o #lerosclássicos2021 de Maio era um clássico de sci-fi ou fantasia.
Este tema continua a ser muito complicado para mim, e não é nenhum segredo. Tanto sci-fi quanto fantasia são áreas que não costumam puxar muito por mim, e nas quais tenho bastante dificuldade. Pensei, num primeiro momento, em ler Philip K Dick (o das ovelhas), mas acabei por pegar neste volume omnibus, fazendo de Maio de 2021 o primeiro momento em que, na realidade, li mais de uma obra para o desafio: li três romances (odeio esta palavra; há alguma tradução melhor para novels?) e dois contos. Todos num só volume, claro.
Já conhecia Sir Arthur Conan Doyle, por já ter lido vários Sherlock Holmes, cujas reviews podem encontrar aqui no blog. Aqui, acompanhamos um outro personagem icónico: o Professor Challenger. O Professor Challenger é um cientista louco, mas brilhante, dado a impetuosos acessos de ira e violência física quando contrariado. Não costuma gostar de jornalistas, por os achar intrusivos e pouco científicos. Por outro lado, temos o narrador da maioria destas histórias, Edward Malone, que é, precisamente, jornalista, e que se oferece para o entrevistar em The Lost World, acerca de algumas alegações que tem feito, juntando-se a ele numa expedição em busca de dinossauros (!!!) para impressionar uma namorada.
À dupla, juntam-se um cavalheiro-aventureiro, Lord John Roxton, e o muito céptico, também cientista, professor Sumerlee. Juntos, rumam à América do Sul, em busca de mais provas da existência de criaturas pré-históricas que viverão, ainda, numa plataforma que, por acidente geográfico, está algo separada do resto da terra (esta premissa lembrou-me um pouco do Herland). Creio que terá inspirado Jurassic Park (pelo menos, a sua sequela, que nunca li, tem o mesmo título), e é daqueles casos em que prefiro a peça inspirada àquela que serviu de inspiração. Há partes algo forçadas, algo abruptas, demasiado incredíveis (os pterodáctilos tinham total capacidade de migrar e prosperar ao longo do mundo e não apenas naquela plataforma).
Some believe what separates men from animals is our ability to reason. Others say it’s language or romantic love, or opposable thumbs. Living here in this lost world, I’ve come to believe it is more than our biology. What truly makes us human is our unending search, our abiding desire for immortality.
A história está, ainda assim, bem construída, pega num tema querido (dinossauros!), tem humor, aventura e imaginação e prende o interesse. Está talvez um pouco datado, mas é um livro que funciona bastante bem.
A segunda aventura intitula-se The Poison Belt, e pega nos quatro aventureiros três anos depois dos eventos do livro anterior, mas na iminência de uma reunião amigável que muda de tom perante uma catástrofe: várias pessoas ao longo do mundo começam a exibir comportamentos estranhos e atípicos, numa corrente que parte de Sul rumo ao Norte, afectando primeiro as terras mais baixas e atingindo posteriormente as montanhas. O Professor Challenger chega rapidamente à conclusão que um "éter", um veneno, está a afectar o planeta terra, e que não irão sobreviver, mas que poderá prolongar um pouco as suas vidas - as do grupo e a da sua esposa - com o apoio de garrafas de oxigénio. É assim que os cinco vêem o mundo morrer à sua volta, a partir de um quarto fechado na casa de Professor Challenger: pessoas a cair no chão, comboios a descarrilar, incêndios descontrolados... levando o grupo a lamentar ter decidido prolongar a sua vida, por terem de lidar com o sofrimento da extinção de todos os outros. Especialmente quando se apercebem que o "poison belt" desapareceu, o ar está novamente límpido, e poderão ser os únicos sobreviventes em todo o planeta.
O fim do mundo está iminente. A falta de outros sobreviventes, e a dor de se verem sozinhos no mundo, lembrou-me de Moi qui n'ai pas connu les hommes, provavelmente o melhor livro que li (lerei?) este ano. O ritmo desta narrativa é consideravelmente mais rápido que o da anterior, e a atmosfera vazia, morta, de Londres, está muito bem conseguida. Não sei se o final me satisfez - tudo está bem quando acaba bem, certo? Mas então e o comboio descarrilado e o incêndio...?
But what will not be forgotten, and what will and should continue to obsess our imaginations, is this revelation of the possibilities of the universe, this destruction of our ignorant self-complacency, and this demonstration of how narrow is the path of our material existence and what abysses may lie upon either side of it. Solemnity and humility are at the base of all our emotions to-day. May they be the foundations upon which a more earnest and reverent race may build a more worthy temple.
É agora que introduzo aqui alguma informação: este volume reune as cinco obras do Professor Challenger por ordem de publicação; no entanto, existe uma ordem cronológica no que respeita à vida dos personagens, e optei por ler nessa ordem, e não pela do livro. Assim, saltei para o fim e fui para o conto When the world screamed, onde o Professor Challenger prova que o Planeta Terra é um organismo, uma criatura viva. Achei um bom conceito: o ecossistema, como os micróbios e bactérias que nos habitam. É a única história que não é narrada por Malone, mas por um engenheiro, Peerless Jones, que é convidado para fazer parte da experiência através da qual o Professor quer provar a sua teoria.
De seguida, a história mais curta, The Disintegration Machine. Aqui, um cientista letão (ou da Lituânia? Confesso que não me recordo) inventou uma máquina que permite desintegrar e reintegrar matéria, conceito que tenho a certeza que inspirou e motivou várias obras que se seguiram. Apenas este cientista sabe o segredo para operar a máquina. Perante algumas revelações, o Professor Challenger comete um acto horrível - que justifica com o bem da humanidade. Previsível, mas agradável.
Aqui, voltei à terceira obra do volume, derradeira na cronologia da vida dos personagens: The Land of Mist. Esta explora o mundo espiritual. Poderá não ser considerada, pora lguns, como ficção científica, mas Conan Doyle prova, nos anexos que junta, que considerava que o espiritismo (a existência de fantasmas) era ciência. Claro que o muito lógico Professor Challenger discorda, como discordaram dele no passado quando ele falou de dinossauros. É uma perspectiva muito interessante porque, aqui, não é o Professor que tenta convencer os outros - é ele que carece de ser convencido.
Aqui, Malone e a filha do Professor Challenger, Enid (filha que nunca fora mencionada em nenhuma das outras obras...), aspirante a jornalista, participam de várias seances de modo a poder produzir crónicas e peças de jornal nas quais falem de forma imparcial daquilo que vêem. No entanto, para surpresa de ambos, aquilo que presenciam convence-os rapidamente da existência de um mundo espiritual que coabita com o "mundo dos vivos".
The most dangerous condition for a man or a nation is when his intellectual side is more developed than his spiritual.
Acho que era uma história com enorme potencial (gosto de espiritismo enquanto tema literário!), e gostei de ver a conversão dos vários personagens através das suas experiências, mas acho que não envelheceu particularmente bem. Não ajuda ter alguma repetição (como disse, eles participam de várias seances), uma cena de crueldade para com crianças algo desnecessária, e (eu acho) o facto de perder um pouco o foco, no meio de vários personagens secundários. Poderia ter beneficiado de ser mais curta, ou de maior presença do Professor Challenger, que é carismático qb.
O Professor Challenger lembra um pouco Sherlock Holmes, retirando o vício de opiáceos, mas nas suas convicções, certezas e confianças. São obras maioritariamente rápidas (novamente, acho que The Land of Mist arrasta), agradáveis e que entretêm bem no seu género aventureiro. Não achei que todas as obras fossem de igual qualidade, e alguma maior consistência (também a nível do agregado familiar do Professor Challenger) teria sido boa. Houve dois momentos neste livro em que me lembrei de Jules Verne, nomeadamente da Voyage au centre de la terre: em The Lost World e em When the World Screamed. Gosto quando obras me recordam de outras. Em suma: Conan Doyle continua a valer a pena, mas prefiro o Sherlock Holmes.
3,5/5
Podem comprar esta edição na wook ou na Bertrand; em português, algumas destas obras foram editadas pela Europa-América, mas já não serão fáceis de encontrar (e não sei se recomendáveis).
