Le tour du monde en 80 jours
Confissão: li este livro meio a contra-gosto.
Foi o eleito do Clube dos Clássicos Vivos para Maio/Junho, e era um livro no qual eu tinha pouco interesse. Porquê? Porque conhecia a história, por exemplo. Porque sabia que era a história de um tipo que fazia a volta ao mundo em contra-relógio por uma aposta, sabia o seu desfecho (vi os desenhos animados do Willy Fogg em pequena, e confesso que desses gostei e muito)... e não me sentia particularmente cativada. Mas cedi.
Li o livro em francês; Verne é um bom autor para quem tem algumas noções de francês, pois escrevia para um público juvenil, logo, sem grandes floreados ou complicações. Do autor, já tinha lido Voyage au centre de la terre, do qual gostara bastante e que já me tinha confirmado esta noção.
Phileas Fogg é a pessoa mais apática e pontual do mundo; tudo na sua vida está medido, até as suas emoções, o que é um pouco aterrador. Assim, até a sua viagem está calculada, ao minuto, de modo a saltar de comboio em barco em navio em autocarro etc etc, sem grandes paragens para ver as paisagens ou conhecer os costumes locais - aliás, sempre que isso, de certo modo, acontece, é por acidente.
- Ah! fit Mr. Fogg, sans manifester aucun étonnement.
O livro é fascinante, à sua forma: pega numa viagem em 80 dias que, se hoje nos parece plausível e com tempo suficiente para parar e ver as vistas, na altura parecia impossível ao ponto de toda a Inglaterra apostar contra (ou a favor) do seu sucesso; também acredito que o pouco mostrado das culturas locais (os ritos indianos, os elefantes, o ópio, os nativos americanos, etc) fossem mega entusiasmantes para o leitor contemporâneo à publicação desta obra.
Porém, hoje, sabe a pouco. Sabe a pouco e, pior, o clímax do livro dá-se mais ou menos a meio, ainda na Índia (a meio da viagem, mais ou menos), com o resgate e introdução de uma nova personagem à comitiva de viagem. Um pouco feio também é o facto de Fogg parecer resolver quase todos os imbróglios com dinheiro.
Fun fact: "Passepartout" é não só aquela coisa branca nas molduras, mas uma chave-mestra, ou, literalmente "passa por tudo".
– Et le train suivant, quand passera-t-il? demanda Phileas Fogg.
– Ce soir seulement.
– Ah! répondit simplement l’impassible gentleman.
É um livro de aventura, que se lê bem, engraçado, divertido, tem partes mais entusiasmantes e mais chatas. Vale pela referência enorme que sempre será.
3,5/5



