Por trás de máscaras brancas e pretas, múltiplas faces se arrastam em cinzas pelo corredor. Já o Xerife Woody, de Toy Stories, passa correndo.

Sibélia Zanon

Olho pela fresta da porta de emergência. Na maca, ela está deitada em posição fetal. Eu também estaria se pudesse. Morar na espiral, onde as coisas começam. Voltar às águas do interior e ter alguém respirando por mim.

Vejo cadeiras vazias e na porta em frente, leio a placa “consultório 5: síndrome gripal”. Mais suspeito do que um espirro é o som que estala os sapatos da médica. Por que ela curaria a gripe com um salto agulha número 9? A altura esticada ajudaria a correr mais depressa para escapar do vírus? Nas cadeiras vizinhas, apenas uma senhora:

– Eu vim fazer um teste para Covid. – Conta tranquilamente.

Paraliso a minha respiração e não respondo para evitar que ela abra novamente a boca e algum perdigoto escape da máscara de florzinhas róseas.

Com a vacina a perder de vista, fujo do quarteirão gripal. Eu, que já era uma refugiada da “sala de espera número 6”. Todos os caminhos do PS levam até a sala de espera número 6 e lá dentro a lava de pessoas se agita como quem pretende entrar em erupção.

Busco a pediatria, habitada pelo choro de um menino. A chupeta cala, mas logo cai. O bico da mamadeira chega em salvação. Mas, o que tem aí dentro é água? E quem disse que água aplaca todo tipo de sede? O choro persiste. Alheia ao drama, no berço vizinho, a menina de olhos vivos faz batuque na grade. Dentro da sua pele de noite profunda, ela se sabe solar.

Tempo de passar arrastado, tédio encapsulado na areia. Foto: Stephan Rech, “Veins in the sand”

Por trás de máscaras brancas e pretas, múltiplas faces se arrastam em cinzas pelo corredor. Já o Xerife Woody, de Toy Stories, passa correndo. Com o olhar vago e o acesso cravado no braço, um homem carrega a bolsa murcha de soro nas mãos, enquanto uma garota alta com pele de oncinha carrega dois ursos gigantes. Cadeiras de rodas habitadas transitam com pressa e pessoas se convertem em maca.

– Preciso passar com o meu pai por aqui. Acabaram as cadeiras de rodas. – Passa o pai encaixado no colo ofegante do moço que se faz atlético pela circunstância.

As lixeiras brilhantes e coloridas de reciclagem se destacam na paisagem. O encardido das paredes e do chão é diáfano, feito vírus, não se apalpa, diferentemente dos corpos de carne e pele e pus. Sacos de resíduos infectantes perambulam pelo corredor, assim como eu. Ainda não descobri onde moram as coisas que infectam e as coisas que curam.

A minha máscara de pano deixa passar os perfumes que atravessam o meu caminho. Espero que ela censure o vírus. O cheiro do almoço não me cai bem.

– Você quer vomitar? – Pergunta a enfermeira para a senhora que usa um saco plástico como babador.

O senhor de cabelos brancos assustado é entregue na emergência. Seu corpo está amparado numa daquelas pranchas amarelas que vemos nas séries americanas de primeiros socorros. Pela cor solar, poderia bem ser uma prancha de surf. Se pudesse, o homem se esconderia em uma praia qualquer. Há momentos em que brincar de esconde-esconde atrai pessoas de todas as idades.

– Ele quebrou alguma coisa? – Pergunta a filha.

– É melhor você falar com o ortopedista.

Uma segunda maca carrega um jovem. Ele tem os dois braços e parte da cabeça enfaixados. A aflição me carrega de volta ao refúgio pediátrico na esperança de casos simplórios, como dentes que forçam abertura gengival para o apetite da vida ou, quem sabe, uma dor de barriga.

Perto de mim, um senhor se ajeita na cadeira de rodas para descansar a cabeça no guidão. Penso no álcool gel que devia ter trabalhado pelos metais antes dele escorar seu cansaço. Tarde demais.

Chegou a hora da alta. A dela e a minha. A emergência dá colo até o banco do carro.

– Vó, você está chapada, né?

– Chupada? O que é isso?

Chego em casa, mas o PS ainda pulsa em mim.

Sibélia Zanon é jornalista e escritora, autora de Espiando pela fresta.