“Júlia sentiu o líquido entrando em seu corpo, como se a preenchesse de ânimo, era como se a vacina recolocasse um pedacinho em sua vida”
Isabella Marzolla
Em meio a tantas polêmicas de comorbidades ou não comorbidades, uma amiga próxima passou por uma experiência no posto de vacinação que retrata o desespero e anseio do brasileiro, que parece precisar lutar até os últimos instantes pela vacina. Segue seu relato. Eram 6 horas da manhã. Júlia acordou em um friozinho de 16º graus e seguiu para a cozinha. Com chinelo e meia, e cara emburrada colocou a água do café para ferver, ansiosa, ela sabia que aquele dia seria diferente, que não seria o mesmo marasmo cotidiano da quarentena interminável. Aquele seria o dia que receberia a primeira dose de esperança para dias melhores, o dia da vacina.
Engoliu o café com uma torrada, vestiu-se e chamou um uber com dificuldade, seus dedos tremiam de ansiedade – ela já é ansiosa normalmente – ao pressionar a tela do celular. O motorista parecia demorar mais do que o normal. Sentada na sala de estar, não conseguia acreditar que o dia havia chegado, ela finalmente iria sorrir aliviada. Porém foi interpelada por um sentimento de raiva, de poder ser vacinada antes de todos os amigos e na frente até dos pais.
Júlia tem asma grave e pela primeira vez desde o ano passado, colocará a bombinha empoeirada dentro da ecobag, junto com um atestado médico do pneumologista. Ela nunca havia contado a ninguém da asma. Um pouco por vergonha e o outro restante por não sentir necessidade de revelar essa condição de saúde aleatoriamente em conversas com amigos e conhecidos. Em poucos minutos o uber chegou. Uma Máscara PFF2 na cara e um aperto no peito a acompanhariam até a chegada no posto.
O posto de saúde de seu bairro, abria às 7 horas da manhã e ela chegou às 6:30. Já havia uma fila que fazia a volta no quarteirão. Andando até o final da fila percebeu olhares – porque ninguém vê mais a parte de baixo do rosto das pessoas graças às máscaras – esperançosos e aflitos. Ela entendeu depois que era devido aos constantes avisos gritados pela agente comunitária do SUS (funcionária do posto), “gente, não sabemos se teremos doses para todos da fila, fiquem e tentem a sorte”.
Júlia entrou na fila atrás de uma mulher simpática que usava duas máscaras e luvas, contudo, atrás delas, o contraste, uma que deixava a máscara de pano pendurada na orelha esquerda e alternava as mãos desprotegidas entre a parede do posto e a boca descoberta. A fila tinha uma variedade interessante de pessoas. A maioria estava ali, assim como Júlia, pelas comorbidades. Havia gente de 40 a 50 anos, senhoras de 70 e poucos vacinando atrasadas, pessoas portando diplomas de medicina, psicologia e afins. Fora Júlia, tinham mais duas jovens de 20 e tantos como ela. Sentiu um alívio por não ser a única jovem com comorbidade.
A agente comunitária “gritona” começou a circular pela fila respondendo perguntas sobre atestados, diplomas, faixas etárias, vacinas. A maioria das perguntas ela ignorava ou gritava de volta que não saberia responder. Uma pergunta em comum ecoava na fila de insones: “A senhora sabe com qual vacina este posto está vacinando?”, “não sei queridos, vou perguntar”, dizia. Voltou alguns minutos depois com a novidade: “É a vacina da Pfizer”, então a fila dá gritinhos contidos de comemoração e a mulher na frente de Júlia comenta baixinho, “você viu? É a Pfizer! Que delícia!”.
Júlia pergunta para a agente comunitária se todos os documentos que ela havia trazido eram suficientes e ouve em voz alta, “querida não sei, deixa eu ver….Hmmm, acho que você não vai conseguir tomar, aqui diz que você usa bombinha”, “sim, é o meu medicamento para a asma” disse à enfermeira. Perplexa com o fato de que asmáticos usam bombinhas a enfermeira questiona, “mas a bombinha é no nariz?”, “não, ela é inalada pela boca”, respondeu Júlia. A agente, sem saber o que responder, se afasta e grita em direção à fila, “gente, todo mundo quer se vacinar, mas não dá para vacinar todo mundo!”, dando a entender que Júlia era “fura-fila” de vacinas, algo que ela é enfaticamente contra.
Em sua defesa, e apesar da timidez, Júlia berra para a fila “gente, eu tenho asma! Quem quiser, que venha ver meus exames aqui”. Todo mundo ficou em silêncio. Júlia começou a duvidar de sua própria comorbidade e puxou na internet os critérios do Plano Nacional de Imunização (PNI) descritos no site do Ministério da Saúde. O desespero começou a bater, ela não sabia o que fazer; ficava na fila e esperava a sua vez para descobrir na hora se seria imunizada ou entrava no posto e conversava com a médica para se certificar de que os papéis que portava eram os suficientes para garantir sua vacinação.
As pessoas da fila sentiram a angústia da menina e se solidarizaram dizendo que tudo ficaria bem, que todos da fila iam conseguir a vacina, que a agente comunitária não era médica ou enfermeira e não sabia do que estava falando. A mulher da frente incentivou que Júlia entrasse no posto, “Se eu fosse você, entrava no posto e quebrava o pau, como assim vocês não vacinam asmáticos? Olha aqui meus exames, caramba! Se eu pego Covid o meu pulmão vai para o beleleu”. Júlia era buquê de vergonha, se entrasse no posto para defender seu o direito à vacina talvez pudesse receber um “não vai rolar” e voltar humilhada para casa.
A fila andava rápido e as mãos de Júlia soavam, seu coração disparava. Por ironia do destino sentiu falta de ar, sua pressão baixou de nervoso e ela deu uma inalada na bombinha, “pena que a agente comunitária não viu”, pensou.
As sensações de chegar tão perto da tão desejada imunização, da necessidade de comprovar com garras e dentes uma doença de saúde séria (sua asma) e do equivocado julgamento de mau-caráter pela funcionária do posto, a causavam agonia e aflição.
Mas Júlia não desistiria assim tão fácil. Ela está fazendo quarentena – ela tem esse privilégio – desde março de 2020, usa máscara e sente que faz sua parte na luta coletiva contra a Covid-19 e que, assim como todos da fila, tinha por direito se imunizar.
Observou que em uma das portas de saída do posto tinham moças de jaleco, pediu para a mulher simpática da sua frente que guardasse seu lugar na fila, e foi falar com elas; “Bom dia, desculpa deixa eu tirar uma dúvida”, disse com as mãos trêmulas de nervosismo. “Esses meus documentos são suficientes para provar minha asma?”, perguntou desesperançada. “Claro que são, fique tranquila”, confirmaram as mulheres. “Ufa!”, suspirou de alívio. “É porque uma agente de vocês me disse que eu não poderia tomar a vacina”, complementou Júlia. Elas, que mais tarde se relevariam farmacêuticas, reiteraram que Júlia tinha todo o direito de estar ali e se vacinar.
Voltou à fila e esperou. Passou-se uma hora e, finalmente, chegou sua vez. Entrou no posto tensa, caminhou até a sala de vacinação, parecia que ia receber uma parte da sua vida de volta. A médica da sala pediu seus exames, olhou com atenção e disse, “pode tirar o casaco, ela vai aplicar, não dói nada”. A enfermeira mostrou o vidro da vacina, o lote, a validade, a seringa vazia e depois cheia com o vírus atenuado e a aplicou no braço direito. Júlia sentiu o líquido entrando em seu corpo, como se a preenchesse de ânimo, era como se a vacina recolocasse um pedacinho em sua vida.
Em poucos movimentos, colocou o casaco novamente, pegou o certificado/tabela de vacinação e saiu da sala. Na porta viu a agente comunitária e não conseguiu segurar a emoção, “está vendo? Eu avisei à senhora que gente com asma grave pode se vacinar”, em seguida virou as costas e saiu sem deixar tempo para uma possível resposta. Ao chegar na calçada sorrindo por baixo da máscara viu seus companheiros de fila e logo caiu na comemoração: “Gente, consegui! Estou vacinada!”. A aplaudiam e riram juntos, felizes pela conquista da conhecida de fila. “Agora faltam vocês, vai dar certo!”.
Voltando para a casa, resolveu ir a pé, rindo e pensando que até o final do ano todos poderão gozar da sensação de imunidade perante algo tão “apocalíptico” como o coronavírus.

*Artigos de opinião não expressam, necessariamente, a visão da revista e seus autores são os únicos responsáveis pelo emitido.