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| Fotografia da minha autoria |
«A morte tudo dissolve»
A pacatez de um lugar pode ser abalada quando menos se espera, colocando a população em alvoroço. E a sensação de desnorte agrava-se perante o choque e a falta de respostas que advêm de um crime violento, hediondo. Se calhar, «a província não é um lugar calmo». Se calhar, é mesmo um recanto «cheio de nervos», no qual os silencios tornam-se ensurdecedores e a realidade nunca mais será a mesma - nem poderia ser.
CAUSA PRÓPRIA: O CONTEXTO
O antigo hospital termal, no Parque D. Carlos I, nas Caldas da Rainha, foi um dos palcos da nova aposta televisiva da RTP - cujo último episódio foi exibido no passado dia 16. No entanto, os holofotes direcionam-nos para uma das zonas do jardim público, mais concretamente, perto do lago, porque apareceu o corpo de um jovem assassinado. Terá sido um caso isolado? Com que motivações? É isso que procuraremos descobrir.
Da autoria de Edgar Medina e de Rui Cardoso Martins, esta série leva-nos a enfrentar um dilema bastante difícil [como se fosse nosso], atendendo a que a sua narrativa apresenta contornos delicados e sombrios.
A NARRATIVA ALTERNATIVA
O processo central vai-se complicando, mas não é o único a merecer cuidado, porque Causa Própria tem uma narrativa alternativa, baseada nos livros Levante-se o Réu e Levante-se o Réu Outra Vez, de Rui Cardoso Martins. Partindo das suas crónicas, somos transportados «para os bastidores dos tribunais portugueses».
Desde os casos mais insólitos aos mais dramáticos, são retratadas histórias de «crimes reais, que aconteceram em algum ponto do país» e que nos deixam a questionar a competência da nossa justiça, as estruturas de apoio que tantas vezes falham às famílias e a própria natureza imprevisível do ser humano.
Os textos serviram, então, de mote para as sessões no tribunal, onde decorre um julgamento particular, que se sobrepõe a todos os outros pela sua magnitude, e as pontas, aparentemente soltas, se começam a unir.
VIOLÊNCIA, HOMOFOBIA E BULLYING
A tentativa de encontrar o verdadeiro culpado aproxima-nos de temas muito pertinentes e que continuam a necessitar de atenção, porque é urgente consciencializar para as suas consequências. Assim, confronta-nos com violência, homofobia, bullying, desigualdades sociais, alcoolismo, famílias desestruturadas/negligentes, relações tóxicas, preconceito, corrupção, entre tantos outros que detetamos nas entrelinhas. Porque o crime ocorrido, sem perder destaque, permite explorar vários aspetos, sobretudo, por ser tão centrado no comportamento humano - enquanto individuo e enquanto parte de uma sociedade - e nas suas intolerâncias.
Em simultâneo, através da figura da juíza Ana, compreendemos o quanto pode ser ténue a linha que separa os nossos valores morais e a necessidade de protegermos quem amamos. Visto que o filho é implicado no caso, como é que se mantém a racionalidade, o lado profissional, quando as emoções permanecem à flor da pele?
É este exercício dicotómico, que nos exige empatia, que nos proporciona um desenrolar angustiante, sentindo o sufoco e uma dúvida constante, ao mesmo tempo que nos mostra que a vida não é uma linha linear: há, de facto, muitas áreas cinzentas a toldar o nosso discernimento, alterando-se com situações mais pessoais.
O MELHOR E O MENOS CONSEGUIDO DA SÉRIE
Causa Própria conquistou-me de imediato, por vários motivos. Ainda assim, houve algo que não funcionou.
O MENOS CONSEGUIDO
O Contexto da Ação: A série pretende mostrar o efeito que um crime desta natureza tem num meio mais pequeno. Contudo, existiram aspetos que não acompanharam esse ambiente. Prolongaram-se mistérios que não durariam tanto tempo, caso acontecessem numa cidade pacata, onde todos se conhecem, porque tudo se saberia com maior rapidez. Sem querer, de todo, perpetuar estereótipos, creio que certos pontos não passariam despercebidos. Além disso, houve um acesso a recursos que não se coadunam na nossa realidade.
O MELHOR
A Emoção das Personagens: Explorada de um modo natural, mas intenso, envolvendo-nos na sua dor.
A Realização: A fotografia/a imagem da série é soberba, usufruindo de um jogo de escuridão, nevoeiro e espaços físicos sombrios, aprofundando o tom misterioso do argumento, que nos arrepia e evidencia as nossas fragilidades. Por outro lado, também consegue criar pontos de conforto, equilibrando a energia dos episódios.
O Elenco: O grupo é extraordinário, mas destaco dois nomes: Maria Rueff, cuja interpretação dramática trouxe outro brilho à narrativa, potenciando momentos reflexivos, e Afonso Laginha, com uma personalidade desconcertante e uma calma que me deixou sempre no limbo, a sentir que esconde algo muito mais profundo.
Não sei o que o futuro reserva, mas acredito que seria interessante investir numa segunda temporada, já que há questões em suspenso. Independentemente disso, pois reconheço que pode ser um desejo pessoal, Causa Própria é mais uma prova que investir na Cultura é o caminho, porque produções assim acrescentam-nos.
Acompanharam a série?
