Cinematográfico, parece que tudo é possível acontecer dentro de uma estação ou em um vagão de trem André Filipe*, colaboração para Fina Desde criança sempre tive um enorme fascínio por trens. Tive muitas miniaturas que, infelizmente, perdi ao longo do tempo. E ali, por volta dos dez anos, já tinha decidido: seria maquinista! Há algo mágico numa viagem de trem. Dá uma saudade de coisas que a gente não viveu. Parece que tudo é possível acontecer dentro de uma estação ou em um vagão. Grandes romances, cenas de ciúmes, crimes passionais. Há um encantamento em ver, pela janela, as pequenas cidades e imaginar suas histórias, sua gente. O trem, diferente dos aviões, enriquece os nossos olhos. O cinema muito contribuiu para esta minha paixão ferroviária. Lembro-me de tantos filmes com trens que até hoje revejo e me causam imenso encantamento. Um dos primeiros foi Pacto Sinistro, filme de Hitchcock de 1951. É durante uma viagem de trem que os personagens de Farley Granger e Robert Walker tramam o duplo assassinato que vai favorecê-los. Mais tarde, vi A Besta Humana, adaptação do romance de Zola feita por Renoir. As imagens esfumaçadas, os maquinistas, as estações. Tudo em preto e branco. Um deslumbre! E um dos meus favoritos: Breve Encontro, adaptação de 1945 da peça de Noel Coward. É numa estação de trem que os amantes interpretados por Celia Johnson e Trevor Howard começam uma linda e trágica história de amor. Na música, ninguém conseguiu traduzir melhor essa sensação do que Milton Nascimento em Três Pontas: Anda, minha gente Vem depressa, na estação Para ver o trem chegar É dia de festa E a cidade se enfeita para ver o trem O trem para mim sempre representou isso. Festa, saudade, despedidas, reencontros, lágrimas, abraços trocados na estação. Cresci, não me tornei maquinista, mas ainda hoje meu coração bate forte quando vejo uma locomotiva, mesmo que na tela do cinema. No Brasil, os trens estão rareando o que é uma pena. Perde-se muito desse encanto que não pode ser substituído por aviões, nem navios. *André Filipe nasceu em 1992. Jornalista e escritor. Vive em Recife