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Acho que este foi dos livros mais consensuais dos últimos tempos. O problema é que eu sou, geralmente, a ovelha ronhosa e como tal fujo dos livros de que toda a gente gosta. Um outro problema é que todos me diziam ser um livro sobre solidão. Pior, um livro sobre a solidão nas cidades. E, para mim, a solidão tem duas facetas: ou é maravilhosa ou deprimente. As coisas maravilhosas não dão grande literatura e a "solidão deprimente" é coisa que me aflige muito e eu tenho medo de ver as coisas que me afligem muito transformadas em literatura bonita. Eu sei, sou estranha. Para além disto comecei três vezes este livro e não fiquei fascinada - em minha defesa devo admitir que essas três tentativas foram a altas horas de noites de insónia.

Mas quando percebi que o livro não é sobre solidão (eu compreendo porque o dizem) mas sim sobre o contrário da solidão e quando conheci o personagem fascinante que nos conta esta história fiquei completa e absolutamente agarrada. E li-o de duas penadas. 

Não considero que este seja um livro sobre solidão, apesar da "solidão", enquanto modo de ser, estar presente. Para mim esta história é sobre escolhas. Sobre coragem. Sobre a coragem de fazer escolhas que não são imediata ou facilmente entendidas. É também um livro sobre preconceito. A escritora mostra-nos os nossos preconceitos de uma forma muito pouco subtil mas bastante eficaz. 

 A coragem de viver de acordo com aquilo em que se acredita, a coragem de ser quem devemos e queremos ser deixou-me encantada. A força de nos libertarmos do condicionalismo da sociedade, de não permitirmos que seja as crenças dos outros a moldar-nos é aquilo que eu li nas páginas deste livro. Esta força, esta coragem não vem sem consequências. O caminho para sermos quem somos não é sempre fácil e sem caixas, quer dizer, sem pedras no caminho. E nem sempre é possível mesmo com toda a coragem do mundo. 

Isabela Figueiredo, neste livro, obriga-nos a enfrentar a nossa cobardia de uma forma ímpar.

Este foi um livro que ofereci mesmo antes de o ler. E não tenho dúvidas que o vou impingir a todos aqueles a quem ofereço livros.