Por José Leonardo Ribeiro Nascimento
(Confiram o texto que Eduardo escreveu sobre O Hobbit aqui)
Apesar de eu ter jogado RPG um longo tempo, gostar muito de histórias de fantasia, conhecer de cor características dos Orcs, Goblins, Hobgoblins, Elfos, Elfos da Floresta e outras raças que povoam o universo criado por Tolkien, e ter vibrado muito quando vi a trilogia O Senhor dos Anéis chegar aos cinemas, nunca me senti especialmente interessado na leitura das obras do escritor inglês. Não sei exatamente o motivo desta indiferença, mas presumo que seja proveniente de algum preconceito erroneamente desenvolvido por mim a partir de opiniões que ouvi (de fontes que hoje sei não serem confiáveis) que diziam que a trilogia do anel era um livro chato, em que Tolkien se preocupava mais em descrever em minúcias uma árvore do que em propriamente contar uma história.
Assim, vi os três filmes no cinema e nem depois da minha segunda fase de leitor (a partir da criação deste blog) tive interesse em ler O Senhor dos Anéis e muito menos qualquer outro livro de Tolkien.
Estava na casa dos meus pais, de férias, quando O Hobbit estreou no cinema. Estava decidido a ver o filme, mas, tendo terminado um livro, fiquei naquele inquietante estágio que os apaixonados por literatura experimentam ocasionalmente: a agonia de não estar lendo nenhum livro. Não tendo trazido nenhum dos meus livros, fui às estantes de meus irmãos. De um lado, Eduardo, cuja estante é povoada de livros de aventura e fantasia; do outro, Reinaldo, com mais russos por metro quadrado que qualquer praça de Moscou.
Perguntei a Eduardo sobre O Hobbit e ele garantiu-me que era divertido e que eu terminaria em um dia. A leitura era fácil e ligeira, já que Tolkien havia escrito o livro para seus filhos.
Decidi-me, portanto, me aventurar na Terra Média a partir justamente do livro que deu origem a tudo.
O Hobbit é um livro simples, e que isso não seja entendido, de forma alguma, como uma crítica. Eu diria que 90% (dizem que brasileiros, mais do que usar estatística, gostam de inventá-las) das aventuras de RPG num universo de fantasia medieval têm essa estrutura: um grupo de bravos heróis (alguns nem tão bravos assim) parte em busca de um tesouro (uma quest) guardado/protegido por um vilão cujo poder está além das suas próprias forças. Ao longo do caminho esse grupo vai enfrentando dificuldades, e aqui e acolá, em meio às agruras que lhes impõe o mestre do jogo, eles encontram aliados, que lhes proverão com comida, água, descanso, cura para os ferimentos, novas armas etc.
É basicamente esta a história de O Hobbit. Bilbo Bolseiro, um hobbit pacífico, tranquilo e respeitável (justamente por não participar de aventuras) está na frente da sua casa, fumando tranquilamente seu cachimbo, quando o mago Gandalf aparece e seleciona-o (mesmo contra a vontade do hobbit) para participar de uma aventura. Mais tarde, depois de ter a sua casa invadida por treze anões mal educados e comilões, Bilbo fica sabendo o que os anões buscam e o que querem dele: eles estão a caminho da Montanha Solitária, onde outrora viviam, até que o cruel e aparentemente indestrutível dragão Smaug os expulsasse de lá para ficar com a montanha e com o gigantesco tesouro que os anões acumularam ao longo dos anos. Bilbo foi indicado por Gandalf para ser o ladrão do grupo, já que em alguns momentos eles precisariam de furtividade e silêncio, características natas aos hobbits e ausentes nos anões.
Mesmo dizendo não, Bilbo acaba indo, e, o narrador explica, isso se deve a uma veia aventureira herdada do lado materno da família do Hobbit.
O Hobbit é mais um conto clássico da jornada do herói. Bilbo começa desacreditado, a partir dele mesmo, que se julga inapto para a aventura. À medida que a aventura vai acontecendo – e muita, muita coisa acontece mesmo! – ele vai percebendo que ser um aventureiro não é privilégio somente reservado aos guerreiros ou aos magos. Um simples hobbit pode se dar bem, desde que tenha coragem, esperteza… e muita sorte!!! Bilbo deve ser o personagem mais sortudo que já encontrei nas páginas dos livros (acho que só perde para Gastão, o incomparável primo de Donald).
A impressão clara que tive enquanto lia é que Tolkien leu todo o livro em voz alta para seus filhos. O tom da narrativa, as pausas explicativas, os diálogos, tudo remete à voz, ao som, à literatura oral. Uma característica que reforça isso é o número de canções presentes no livro. Os anões cantam quando estão tristes e quando estão alegres. Os trolls cantam, os orcs cantam, os elfos cantam. Sim, é um livro com um tom mais “infantil”, já que muitas vezes o autor faz alguns parênteses para explicar algumas emoções, alguns termos ou situações que uma criança teria dificuldade em interpretar. No início estranhei esta forma de contar a história. Comecei a achar que o livro seria chato, maçante. Avancei e não em arrependi. Tolkien sabe contar histórias. Sabe criar personagens. Sabe conduzir a narrativa.
Assim como Bilbo foi encontrando seu lugar nesse mundo de aventura, eu fui conhecendo os personagens, apegando-me a eles, torcendo pelas suas vitórias. Em alguns momentos tive muita raiva de Thorin ou de Bilbo. Depois, eles se redimem e ao final do livro a certeza é de que O Hobbit é a melhor história de aventura que já li. Claro, não sou um grande fã do gênero, não tenho grandes livros de aventura no meu currículo, mas recomendo O Hobbit para quem quiser embarcar numa grande jornada, repleta de bom humor, atos de coragem, sorte e heroísmo.
Minha Avaliação:
5 estrelas em 5
