120-years-Tolkien-To-the-Professor-jrr-tolkien-28028991-500-570O hobbit

“__ Vitória, afinal de contas, acho eu!—disse ele, sentindo a cabeça dolorida.—Bom, parece uma coisa muito melancólica.”

“… e mesmo os dragões chegam ao fim…”

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em  11 de dezembro de 2012)

Antes da estreia do filme (e torcendo para que Peter Jackson recupere a inspiração, após os horrorosos e revoltantes King Kong e Um olhar do paraíso), quis nostalgicamente reler O Hobbit (The Hobbit,
or There and Back Again
)  pela última vez como livro desvinculado de outra linguagem.

Não me considero (espero) um exemplar da fauna representada, de forma deliciosa, por Sheldon Cooper & Cia (The Big Bang Theory), fetichizando de forma ridícula as histórias de fantasia e ficção científica, porém o livro de J.R.R. Tolkien (1892-1973)  mantém há exatamente 30 anos fascínio e charme sobre mim (desde que o li na antiga tradução da Artenova,feita por Luiz Roberto Monjardim; a atual, editada pela Martins Fontes, é de Lenita Maria Rimoli Esteves, com a colaboração de Almiro Pisetta). Nem por isso acredito em duendes, juro. Só continuo a acreditar, relido o romance, que se trata de uma maravilhosa introdução a um dos universos ficcionais mais notáveis já criados.

A versão de O Hobbit que atualmente lemos é um tanto diferente da original, publicada em 1937, e isso é revelado por algumas discrepâncias no tecido narrativo. Alguns episódios foram bem alterados (a maneira como Bilbo se torna portador do Anel, antes em poder do Gollum, por exemplo) em função da trilogia O Senhor dos Anéis, entretanto o principal reflexo dessa ressignificação do texto inaugural por causa da expansão posterior das aventuras da Terra Média é que Tolkien ora adota um tom de bonomia, que parece ter sido seu impulso inicial ao escrever a história de Bilbo e dos anões em busca de um tesouro, uma coisa bem infanto-juvenil, ora dá ao relato  uma  ressonância sombria e desoladora, muito adulta,  com aqueles ambientes e seres primordiais, longevos e ameaçadores, que fornecem a tônica de boa parte dos livros que tratam de Frodo Bolseiro.

Como nos volumes da sua obra-prima, trata-se de um épico geográfico, atravessando territórios imensos. Só que não está em jogo o destino das civilizações e dos seres. A princípio, tudo até parece gratuito, uma brincadeira anedótica, o modo como Bilbo, pacato e sensato hobbit, se incorpora a uma confraria de anões que almeja reaver o tesouro do seu povo na Montanha Solitária, dominada pelo dragão Smaug. Nessa expedição, o mago Gandalf confere a Bilbo o avatar de ladrão, o que nos remete a um Ali Babá que fosse um pouco Sancho Pança. Há as características típicas dos contos populares de todos os tempos: além do tesouro (a recompensa), há um mapa, uma chave, uma porta secreta, um objeto mágico (o anel), a jornada, e muitos obstáculos…

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Como já disse, há um tom mais leve de conversa à beira da fogueira (ou da lareira), em que Tolkien se dirige frequentemente aos leitores, aliás com nítida influência kiplinguiana (pois o autor de Kim era mestre nisso) inclusive para antecipar fatos e criar expectativa: “De qualquer modo, eu não gostaria de estar no lugar do Sr. Bolseiro”; “O que teria pensado seu pai, Bungo, não me atrevo a pensar” (Tolkien brinca muito com a diferença de postura diante da vida dos dois clãs ancestrais do seu protagonista: os acomodados Bolseiros e os cabeças-de-vento e aventureiros Tûk):  “Agora estamos nos aproximando do fim da viagem, e chegando à última e maior aventura; por isso devemos nos apressar”; “por causa de uma guerra da qual vocês ouviram falar, mas que não entra nesta história”; “Vocês podem perceber que haviam mudado muito depois da opinião sobre o Sr. Bolseiro e passado a sentir um grande respeito por ele”; “por causa de uma guerra da qual vocês ouviram falsr, mas que não entra nesta história”.

    No entanto, eu (que acho absurdo alguém catalogar O Senhor dos Anéis como livro juvenil),  sinto nitidamente esse tom desafinar, porque a natureza em Tolkien, esse mundo ainda não diminuído à medida da humanidade (“Não sobraram palavras para expressar a sua vertigem desde que os Homens mudaram a língua que aprenderam dos elfos, no tempo em que todo o mundo era maravilhoso”), nada tem daquela coisa dançante e benigna, de passarinhos e bichinhos saltitantes à nossa volta, à la Branca de Neve versão Disney.

Nada disso chega a atrapalhar o aficionado. O defeito do livro é que, tirando Bilbo, e ao contrário da luta contra Sauron, não há um único personagem particularmente interessante, nem mesmo Gandalf (que cresce tanto em O Senhor dos Anéis). Ainda bem que o hobbit é tão marcante que consegue suprir sozinho essa carência. Aliás, exatamente no meio do romance, ele se torna o herói, e o que era uma jornada meio aleatória passa a ser um conjunto de etapas para que esse seu novo papel se torne mais e mais convincente, no equilíbrio da inteligência e da sorte (e com a ajuda do anel mágico, claro): “na verdade sabia fazer um monte de coisas, além de soprar anéis de fumaça, propor adivinhas e cozinhar, que eu ainda não tive tempo de lhes contar. Não há tempo agora”.

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Como depois Frodo descobrirá, os hobbits são os seres inesperados, os que não constam das profecias ou lendas: “e  não se fez nenhuma pergunta sobre como ele entrava na história—nenhuma canção aludira a ele, nem sequer de modo mais obscuro”. Gandalf alerta aos companheiros de empreitada: “…estou mandando o Sr. Bolseiro com vocês. Já lhes disse antes que ele é mais do que imaginam, e logo descobrirão isso.” Acho que o mago só não imaginava que Bilbo teria a valiosa ajuda do Anel, pois a princípio o hobbit oculta tê-lo em seu poder. Mas mesmo sem ser informado do fato, lança uns olhares inquiridores e perscrutantes ao descendente dos Bolseiros-Tûks que antecipam os que Dumbledore dirigirá à turma de Harry Potter décadas mais tarde.

No meio da jornada, perdido dos outros, ele enfrenta um ser terrível e então lemos: “De alguma forma, ter matado a aranha gigante, sozinho na escuridão, sem a ajuda do mago ou dos anões ou de qualquer outra pessoa, fez uma grande diferença para o Sr. Bolseiro. Sentiu-se uma nova pessoa”. Mais adiante: “Já era um hobbit muito diferente daquele que saíra do Bolsão, muito tempo atrás, sem um lenço no bolso.

O mais importante é que o heroísmo de Bilbo é pé no chão, calcado no bom senso, no equilíbrio, pois descobriremos que  o conflito mais dramático da trama não é tanto a ameaça do dragão, e sim a ganância, o desprezo e desconfiança entre espécies diferentes de seres. E acrescentando-se à aura do protagonista, o humor do genial escritor inglês, cujas aventuras são sobretudo amargas e melancólicas; mas cujo maior defeito, na filosofia do hobbit, é fazer “com que você se atrase para o jantar”.

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TRECHOS SELECIONADO:

“Ficaram ali deitados por algum tempo, bufando e ofegando. Mas logo começaram a fazer perguntas. Exigiam detalhadamente explicado todo o negócio do desaparecimento, e o achado do anel interessou-os tanto que por alguns instantes esqueceram seus problemas. Balin, em particular,  insistia em ouvir outra vez a história do Gollum, com adivinhas e tudo, com o anel no lugar adequado. Mas, depois de algum tempo, a luz começou a diminuir, e então outras perguntas foram feitas. Onde estavam, onde estava a trilha, onde havia comida e o que iriam fazer? Fizeram essas perguntas vezes e vezes, e era do pequeno Bilbo que pareciam esperar as respostas (…) Na verdade, esperavam realmente que ele pensasse em algum plano maravilhoso para ajudá-los, e não estavam apenas resmungando. Sabiam muito bem que, não fosse pelo hobbit, logo teriam sido mortos, e agradeceram-lhe muitas vezes. Alguns até se levantaram e se curvaram ao chão diante dele, embora caíssem devido ao esforço e não conseguissem pôr-se em pé de novo por algum tempo. Saber a verdade sobre o desaparecimento na alterou de modo algum a opinião deles sobre Bilbo, pois perceberam que o hobbit tinha certa inteligência, além de sorte e um anel mágico—e todas as três coisas são posses muito úteis. Na verdade, elogiaram-no tanto que Bilbo começou a sentir que, afinal de contas, realmente havia nele algo de aventureiro destemido, mas teria se sentido bem mais destemido se houvesse algo para comer.”

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“Foi uma batalha terrível, a mais apavorante de todas as experiências de Bilbo, e que naquele tempo mais odiou—o que quer dizer que, muitos anos depois, tornou-se a aventura de que mais se orgulhava e a que mais gostava de recordar, embora sua presença tivesse sido totalmente irrelevante.”

Veja, também, no MONTE DE LEITURAS: https://armonte.wordpress.com/2012/12/10/o-senhor-da-ficcao/

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