A Casa dos Poetas marcou ontem presença na Biblioteca Municipal de Faro António Ramos Rosa para o evento de apresentação do livro, uma espécie de semi-antologia com poemas antigos e inéditos, do poeta algarvio Casimiro de Brito.
A apresentação ficou a cargo do não menos brilhante poeta José Carlos Barros, contando com a presença do Vereador da cultura de Faro e de Fernando Esteves Pinto, da editora 4 Águas.
Trouxemos um livrinho para casa, de seu nome 69 Poemas de Amor, título curioso, 69 porque, explicou o poeta, aquando da conclusão da recolha de material, este tinha 69 anos.
A conversa, depois da leitura de poemas do autor e da excelente exposição e crítica da obra por parte de José Carlos Barros, resvalou para o inevitável nome de António Ramos Rosa, poeta maior da literatura portuguesa, e da ligação de muitos anos com Casimiro de Brito. Foram lidos alguns poemas de Ramos Rosa, encerrando uma noite bastante agradável.
Deixamos dois dos poemas inéditos de Casimiro de Brito e que integram esta semi-antologia de poesia:
436
Amando noite e dia num hotel de Madrid
Cheguei à conclusão que só o amor pode
Decifrar o segredo; que só no sexo
Se aproximam a música e a música de corpos
Habitados por essa poesia que vem do fundo.
O amor é a entrega assassina
Que não se deixa fixar: a luz que vem do abismo
E que nunca poderia colher, eu que já estou
Noutro lugar. Fodendo
Até cair para o lado
Curámos o que estava doente, o teu corpo mínimo
E o meu já cansado. Exilados
Da Via Láctea, e dentro dela,
Deste vaso louco onde se misturam
Os vivos e os mortos, fomos em busca
Da luz. A minha luz
Foi vir-me quando me julgava
Cego e vazio. A tua luz
Foi quando abriste o que julgavas
Para sempre fechado.
445
Escultura e dança: o meu corpo
No chão do teu corpo: um combate
Contra a morte. Quando sou escultura,
Danças. Quando, em sossego, me acolhes,
Respiro. Depois hesito, murmuro e caio
No abismo. Silêncio. Súbito
Um sismo. És tu quem se desfaz
Enquanto em teus vasos me derramo.
O caos em movimento.
Cavalgas uma onda.
Mergulho nma fenda.
Casimiro de Brito, em 69 Poemas de Amor, 2008, 4 Águas

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