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«Cenas de uma vida íntima em Paris»
Avisos de Conteúdo: Preconceito, Referência a Morte/Suicídio, Violação
ENTRE O CERTO E O ERRADO
A Mulher-Casa leva-nos até Paris e é nesta cidade que acompanhamos o casal Mara e Thomas: ela modista de chapéus, ele ghostwriter de políticos. Fruto deste amor, nasceu o filho Raphael, no entanto, os alicerces que pareciam uni-los começam a enfraquecer. Na bagagem, ficam os sonhos e a ambição de uma vida de glamour.
«E que ar irónico foi aquele com que me rotulaste de feminista?»
É a escrita exímia da autora que nos envolve nesta vida tão comum, com todos os dilemas e intimidade que isso pressupõe. Aliás, é pela sua escrita que somos capazes de sentir cada traço de hesitação, de tristeza, de sufoco, de apatia. Enquanto o marido ascende na sua profissão, a protagonista vê-se a estagnar, a experienciar uma sensação de confinamento, como se o sentido dos seus dias só tivesse valor dentro de quatro paredes. Portanto, há um tom solitário que cresce e que passa a nortear Mara, limitando as suas ações.
«A solidão é o teu estado natural»
Assim, neste compasso narrativo, refletimos sobre a perda de identidade que relega a modista apenas para o papel de mãe e de dona de casa. É neste abismo que procura recuperar as rédeas da sua vida e, em consequência disso, acrescenta-se um terceiro elemento à equação. Não vou desenvolver, para não estragar a leitura, mas é quando Matthéo se cruza no seu caminho que encontra uma certa vivacidade, há muito perdida.
«Talvez todos os casais sejam assim, mas ela sonha com uma relação
em que as duas pessoas fluam naturalmente para um mesmo objectivo,
as ideias convirjam, as decisões se tomem em espontâneo uníssono»
A linha que separa o certo e o errado é muito ténue, portanto, assistimos a sentimentos contraditórios, a muitos debates internos, numa luta constante para compreender se os riscos compensam e até onde estará disposta a ir. O sentido de lealdade é posto à prova inúmeras vezes, levantando questões sobre caráter e valores.
«A necessidade de convívio é mais forte do que a inclemência do tempo»
Em simultâneo, através da complexidade da personagem feminina, refletimos sobre tantos outros assuntos: a fragilidade das relações, desconfiança, o peso da carreira, a influência das altas figuras de poder, sedução e descredibilização das vítimas. Nesta história, fica claro o quanto os elos se desfragmentam perante o conformismo e a divergência de prioridades, manifestando a sensação de se seguirem direções opostas.
«(...) continua sem saber se é lucidez ou passividade, mas seja o que for,
tem de fugir dessa agressão, desse amor que a salva e enlouquece»
A Mulher-Casa tem um ritmo mais pausado, para conseguirmos captar a repetição dos dias, o ponto de rutura e a necessidade de agir. Ainda assim, preferia que algumas passagens fossem mais céleres. E, confesso, esperava outro final, de modo a combinar melhor com a subtil metamorfose de Mara. Não obstante, é uma história fabulosa, pela vulnerabilidade e por comprovar que a salvação pode estar dentro de quem somos.
📖 Da mesma autora, li e recomendo: Apneia
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