o meu marido, maud ventura
psicologia do comportamento amoroso, relacionamentos disfuncionais, saúde mental na literatura, ficção contemporânea francesa, obsessão romântica
Fotografia da minha autoriaO livro de Maud Ventura não seria uma escolha óbvia para mim, caso não fizesse parte do Clube do Livra-te. Como precisava de uma leitura mais descontraída depois de ter terminado o da Lénia Rufino, Silêncio no Coração dos Pássaros, achei que seria uma boa opção. Só não contava encontrar tanta insanidade. amor, obsessão e relações disfuncionaisO Meu Marido apresenta-nos uma mulher profundamente apaixonada pelo seu cônjuge - ou, sendo honesta, profundamente obcecada por ele -, ao ponto de nunca conhecermos o seu nome: ser seu marido é tudo o que precisamos de saber sobre ele. Com uma vida perfeita, e juntos há quinze anos, a protagonista começa a questionar-se sobre a reciprocidade desta relação.O início intrigou-me logo, uma vez que oscila entre um tom enamorado e um tom sofrido, mas também me fez ficar preocupada com a cadência e a espiral de pensamentos maníacos que foi partilhando. De repente, era como se esta mulher nunca parasse e estivesse sempre à procura de significados e de pistas que sustentassem as suas doses de loucura.«É fácil reconhecer uma primeira vez, mas raramente sabemos que estamos a viver algo pela última vez»Aproximando-nos mais ou menos da personagem principal, creio que a sua construção é exímia. Mesmo que me venha a esquecer de partes do enredo, sei que dificilmente me esquecerei da sua voz, das suas observações, da forma como foi alimentando a sua noção de realidade. E a verdade é que, através dos seus comportamentos, me deixou a refletir sobre maternidade, desequilíbrio emocional, comunicação, solidão e saúde mental. Há, aqui, pensamentos bastante problemáticos, muitos deles ocultos em saídas hilariantes, que são um reflexo da instabilidade que a habita, da autoestima frágil e do quanto conseguimos ser manipulados pelas nossas fragilidades, como se tivessem plantado uma semente e a estivéssemos a ver crescer.O Meu Marido é disfuncional e, confesso, surpreendeu-me pelo epílogo. Não me parece que encaixe bem nos thrillers, embora exista um jogo psicológico que perturba, mas evidencia efeitos das relações tóxicas e de como é ténue a linha que separa a veracidade dos factos daquilo que é plantado para nos confundir - e das ideias que permanecem enraizadas na sociedade. notas literárias
Texto originalmente publicado em Entre Margens