Fotografia da minha autoria«Quando um percurso de transformação pode ser um percurso de traição»Avisos de Conteúdo: Violência Doméstica, Depressão, Crueldade Animal, Distúrbios Mentais, Morte, Linguagem/Cenas ExplícitasA questão «somos mais nós ou o sítio onde nascemos» tem ecoado em mim, desde que a escutei na série Emília, porque acredito que somos uma mistura desses dois pólos - nem sempre equilibrados. Agora, ao observar o livro de Tara Westover, percebo o quanto é o exemplo perfeito dos universos que nos habitam.CRENÇAS, DISFUNCIONALIDADE, REINVENÇÃOUma Educação cruza-nos com a história autobiográfica de Tara, que cresceu no seio de uma família Mórmon, sem qualquer sinal da sua existência e a preparar-se para o fim dos Tempos. Além disso, passou a maior parte da sua infância/adolescência a trabalhar com o pai, sem frequentar a escola. Esta limitação, que se foi tornando mais evidente nas suas reflexões, foi o gatilho para romper com as suas origens e reinventar-se.«As palavras ficariam a pairar uns instantes no ar, e então todos perceberiam para onde é que eu tinha ido»Enquanto lia a narrativa, ia-me questionando sobre a quantidade de perspetivas que o mundo pode ter e como é que o nosso crescimento pode ser condicionado por crenças de terceiros; como é que a educação que recebemos em casa nos pode definir ou ser um impulso para ambicionarmos chegar mais longe - e livres.«O silêncio era pior do que os gritos»Não é, de todo, um livro fácil de descobrir, atendendo a que mexe muito com os nossos valores, com o que nos parece ser o mais correto e com a nossa sensibilidade perante momentos de negligência. É, em igual medida, muito revoltante e um exercício de empatia fabuloso, porque nos obriga a deixar de parte as nossas convicções para compreendermos que o contexto pesa e que sempre existiu uma perceção enviesada da realidade.FAMÍLIA: ENTRE O SUFOCO E A LIBERDADEOs relatos que compõem esta obra, tenho de confessar, parecem surreais, sobretudo, quando se centram nas visões do pai, porque são muito distantes do meu mundo. Embora comece a perceber que aquele não é o seu caminho, que quer conhecer mais e educar-se, é fascinante ver como Tara fala sobre a família, como pretende que estes elos não se quebrem por procurar um sentido que choca com a religiosidade de sua casa. No fundo, começa a querer libertar-se das suas raízes, mas também quer regressar sem culpas, numa base de respeito.«Sustive a respiração. Mais um minuto, pensei, antes de tudo acabar»O abuso psicológico e físico que pautou os seus dias sufoca, ainda para mais, pelo silêncio que o cobria, pela dormência que parecia transversal e pelos próprios dilemas que despertava. Visto de longe, podemos sentir que só havia uma solução possível, contudo, através das memórias da autora, entendemos que nada é assim tão linear, que o medo limita e que há inúmeros fios invisíveis que nos prendem. Quando não estamos seguros de os querer cortar, porque as consequências podem ser nefastas, aprendemos a calar o que nos dói.«Quando pertencemos a um sítio e crescemos no seu solo, nunca sentimos necessidade de dizer que somos de lá»Uma Educação permite-nos refletir sobre escolhas e sobre os papéis que desempenhamos para moldar o nosso caráter. Achei algumas partes um pouco repetitivas, mas também senti a tristeza, a ambiguidade e a angústia de um futuro incerto. Acima de tudo, considero um testemunho valioso, porque nos mostra o impacto de quebrar barreiras e porque nos faz pensar sobre a noção de família e sobre aquilo que damos por garantido.◾ DISPONIBILIDADE ◾Nota: O blogue é afiliado da Wook e da Bertrand. Ao adquirirem o[s] artigo[s] através dos links disponibilizados estão a contribuir para o seu crescimento literário - e não só. Muito obrigada pelo apoio ♥