Fotografia da minha autoria«E se tudo aquilo que te preparaste para ser estiver, afinal, errado?»Gatilhos: Famílias Disfuncionais, Saúde Mental, Pressão SocialO ser humano projeta, constrói sonhos e expectativas, alimenta uma imagem de um futuro que nem sempre lhe serve, mas acredita que sim. Às vezes, é mais fácil. Às vezes, só não sabe como largar a mão. Por isso é que, por vezes, falamos e nem sempre alguém nos está a ouvir: porque nós também não nos escutámos.A CORAGEM DE SERMOS NÓSRádio Silêncio resgata-nos para o mundo de Frances, uma aluna exemplar, a acusar a pressão de entrar na universidade, algo que se impôs. No entanto, começam a surgir dúvidas e é quando conhece Aled Last, a figura por trás do podcast de ficção científica que adora, que se confronta com a sua verdadeira essência.«Para ser sincera, bem queria eu fazer a mesma coisa, simplesmente ir para casa quando quisesse, mas não podia, porque tenho demasiado medo de fazer o que quero»Achei o conceito do livro muito interessante, até porque permite criar um universo alternativo - e acredito que todos nós, de alguma maneira, construímos o nosso: para nos sentirmos seguros, para encontrarmos um propósito, para desligarmos daquilo que nos magoa. Há muitos motivos que o sustentam e todos são válidos, a partir do momento em que tentamos cuidar de nós ou, pelo menos, não sucumbir aos focos de pressão.«Não sei o que senti. Talvez me tenha sentido um pouco sozinha»Tentei recuar à idade dos protagonistas e interpretar as situações dessa perspetiva. Pensei em tudo aquilo que nos impomos, por sentirmos que é o mais correto ou por já nos termos conformado. Analisei o meu percurso académico e os comportamentos dos meus familiares, durante essa altura, e reforcei a antipatia por pais que tentam que os filhos sigam as suas pegadas, pais que tentam, ao fim da força, que os filhos correspondam às ambições e aos caminhos que lhes idealizaram. Respeito, porém, não compreendo, porque acho que isso retira autonomia à criança/ao adolescente, impedindo-o de consolidar a sua identidade. Portanto, ainda que não tenha sido um gatilho que me tenha feito parar a leitura, confesso que me angustiou acompanhar a evolução desta parte da narrativa, pois fiquei a pensar na quantidade de miúdos que passam pelo mesmo.«Não parecia que eu estava a tentar ser alguém que não era, que estava a representar»Por outro lado, embora tenha ficado com algumas perguntas pendentes, Rádio Silêncio é uma obra fascinante por todo o processo de descoberta, pela diversidade, por mostrar que não há qualquer problema em mudarmos de trajetória e por abordar questões de identidade de género. Por vezes, usamos a nossa voz ou ligamos o rádio só para preencher o vazio. Outras, para marcar o tom e recuperar as rédeas da nossa vida.◾ DISPONIBILIDADE ◾Nota: O blogue é afiliado da Wook e da Bertrand. Ao adquirirem o[s] artigo[s] através dos links disponibilizados estão a contribuir para o seu crescimento literário - e não só. Muito obrigada pelo apoio ♥