ESTANTE CÁPSULA ◾ RÁDIO SILÊNCIO, ALICE OSEMAN
pressão acadêmica, identidade de gênero, dinâmicas familiares disfuncionais, literatura young adult, autodescoberta
Fotografia da minha autoria«E se tudo aquilo que te preparaste para ser estiver, afinal, errado?»Gatilhos: Famílias Disfuncionais, Saúde Mental, Pressão SocialO ser humano projeta, constrói sonhos e expectativas, alimenta uma imagem de um futuro que nem sempre lhe serve, mas acredita que sim. Às vezes, é mais fácil. Às vezes, só não sabe como largar a mão. Por isso é que, por vezes, falamos e nem sempre alguém nos está a ouvir: porque nós também não nos escutámos.A CORAGEM DE SERMOS NÓSRádio Silêncio resgata-nos para o mundo de Frances, uma aluna exemplar, a acusar a pressão de entrar na universidade, algo que se impôs. No entanto, começam a surgir dúvidas e é quando conhece Aled Last, a figura por trás do podcast de ficção científica que adora, que se confronta com a sua verdadeira essência.«Para ser sincera, bem queria eu fazer a mesma coisa, simplesmente ir para casa quando quisesse, mas não podia, porque tenho demasiado medo de fazer o que quero»Achei o conceito do livro muito interessante, até porque permite criar um universo alternativo - e acredito que todos nós, de alguma maneira, construímos o nosso: para nos sentirmos seguros, para encontrarmos um propósito, para desligarmos daquilo que nos magoa. Há muitos motivos que o sustentam e todos são válidos, a partir do momento em que tentamos cuidar de nós ou, pelo menos, não sucumbir aos focos de pressão.«Não sei o que senti. Talvez me tenha sentido um pouco sozinha»Tentei recuar à idade dos protagonistas e interpretar as situações dessa perspetiva. Pensei em tudo aquilo que nos impomos, por sentirmos que é o mais correto ou por já nos termos conformado. Analisei o meu percurso académico e os comportamentos dos meus familiares, durante essa altura, e reforcei a antipatia por pais que tentam que os filhos sigam as suas pegadas, pais que tentam, ao fim da força, que os filhos correspondam às ambições e aos caminhos que lhes idealizaram. Respeito, porém, não compreendo, porque acho que isso retira autonomia à criança/ao adolescente, impedindo-o de consolidar a sua identidade. Portanto, ainda que não tenha sido um gatilho que me tenha feito parar a leitura, confesso que me angustiou acompanhar a evolução desta parte da narrativa, pois fiquei a pensar na quantidade de miúdos que passam pelo mesmo.«Não parecia que eu estava a tentar ser alguém que não era, que estava a representar»Por outro lado, embora tenha ficado com algumas perguntas pendentes, Rádio Silêncio é uma obra fascinante por todo o processo de descoberta, pela diversidade, por mostrar que não há qualquer problema em mudarmos de trajetória e por abordar questões de identidade de género. Por vezes, usamos a nossa voz ou ligamos o rádio só para preencher o vazio. Outras, para marcar o tom e recuperar as rédeas da nossa vida.◾ DISPONIBILIDADE ◾Nota: O blogue é afiliado da Wook e da Bertrand. Ao adquirirem o[s] artigo[s] através dos links disponibilizados estão a contribuir para o seu crescimento literário - e não só. Muito obrigada pelo apoio ♥
Texto originalmente publicado em Entre Margens