Por Renata Deda

– Serviçal, pegue meu caderno agora! -Pois Não.

 …

 -Mais um dia se passou e ainda não terminei meu trabalho, acho que falta alguma coisa…

 -O que meu senhor? Tudo vai sair nos conformes.

 -Não sei, falta algo para que todos fiquem inertes às ordens que virão. Vá à zona Leste, aquela do mármore, e traga-me tudo que já foi feito por enquanto. Quero saber a quantas anda o processo lá em cima.

Passados alguns minutos…

-Aqui estão todos os arquivos. Demorei um pouco porque tinha muita gente por lá tentando atrapalhar meu caminho.

-Não quero saber dos seus motivos. Mas é bem verdade. A cada dia que passa temos mais “hóspedes”, não é mesmo? Muito bom, muito bom.

-Aqui já tem algumas de suas criações:  a soberba, a inveja e a ira.

-Vou dar uma volta por aqui para pensar. – disse o Diabo.

Enquanto caminhava por tantos corpos que suplicavam de dor, o Diabo pensava em tudo. Sabia perfeitamente como as coisas aconteciam no céu. Sabia da humildade, da misericórdia, da bondade, da honestidade, da generosidade de Deus e isso tudo o enojava. Queria ser mais poderoso e destruir todas as belas e perfeitas (sim, ele reconhecia internamente isso) coisas que Deus havia criado.

-Tão perfeitinho, tão bonzinho, alguém precisa implantar a discórdia para ver se ele continua tão “inho” assim. Já criei a soberba, a inveja e a ira. Mas falta mais. Farei algo que atrapalhe qualquer outra criação brilhante que Ele venha a ter. Algo que deixe a pessoa imóvel, sem vontade até de viver. E sem vontade de viver, ela se suicida e eu ganho a batalha!

O diabo voltou a pensar no que já tinha criado e chegou à seguinte conclusão:

-A soberba faz o raio de luz querer ser o sol, e vendo outro sol como ele, tem inveja. Essa por sua vez, vendo-se no outro, tem raiva da “injustiça” de Deus – a ira. E a ira como sendo a revolta, promove um estado de TRISTEZA em seguida. É isso, o pecado será a tristeza!

-Serviçal, tive uma idéia brilhante, como todas, claro. Criei a tristeza.

-Claro meu senhor, não poderia ser melhor! Mas qual é mesmo a intenção?

-Estando triste, a pessoa perde o sentido de viver, não quer fazer nada porque está depressiva. Tudo que faz acha que é ruim e acaba por se acostumar a não fazer qualquer coisa que seja. Inclusive rezar para Ele. Se for pregado o trabalho, o triste não o fará. Se for pregada a paciência, o triste não a exercitará. É basicamente isso.

-Podemos testar essa nova criação em alguém, Lorde das Trevas.

-Claro que podemos!

No setor pessoal….

-Vai ser aquela estudante. É bom que seja uma pessoa nova, porque assim podemos acompanhar os efeitos mais tardios desse pecado.

– Cheguei mãe!

-O que fez hoje na escola, querida?

– Hoje a professora pediu que a gente entregasse aquele trabalho de pesquisa com pessoas idosas que ela passou semana passada. Lembra qual é mãe?

-Lembro sim, filha. Não é aquele que você foi de casa em casa saber se tinha alguma vovó para contar histórias?

-É esse sim! Ela me deu nota 10!

-Que bom querida! Continue assim esforçada que você vai longe!

-Está bem mamãe. Mas agora me deu um soninho…vou deitar um pouco.

4 meses depois…

-Mas o que está acontecendo com você Michele? Não ajuda mais em casa, o boletim está péssimo, só vive pelos cantos agora.

-Nada mãe. Vou deitar. Fique aí falando sozinha.

-Michele volte aqui!!

7 anos depois…

-Mãe, eu estou cansada de dizer que o que eu tenho é PROCRASTINAÇÂO! Eu sou doente, só isso. Não tenho preguiça, só adio meus compromissos.

– Preguiça! Essa é a palavra de batismo da minha tristeza, serviçal!  Não há fardo mais pesado que o da preguiça.

– Essa idéia de criar uma doença de fachada foi brilhante Mestre!

-É. Essas  pessoas tolas acreditam em tudo que a medicina cria, então foi fácil.

-Essa daí já não vai ter um futuro bom. Vai com certeza acabar parando aqui. Quero ver o que o “Todo Poderoso” vai fazer agora. Hahahaha!

E o chão borbulhava de sangue enquanto o Diabo sorria de satisfação.

Enquanto isso, no céu…

Os anjos levavam a Deus a notícia de que o Diabo havia criado a Preguiça. E quando Deus soube a primeira coisa que disse foi: “Não se preocupem meus queridos, para a “Preguiça” do Diabo eu tenho a Disciplina.

– Mas papai do Céu – disse um anjinho de cabelo preto bem lisinho e olhinhos azuis – existe uma garota, a Michele, que está servindo de teste para o “encardido”. Ela está sofrendo muito com isso, e já teve até pensamentos…..é…pensamentos…..suicidas!

Essa última palavra do anjo saiu quase que num sussurro.

– Não se preocupe meu anjinho. É bem verdade que a quem muito foi dado, muito será pedido. Mas isso não pode se tornar um fardo na vida de ninguém. Tem que ser por consciência. Vamos ensiná-la o significado de “O pão nosso de cada dia nos dai hoje”, que a mãe dela reza todas as noites.

Deus então, com toda sua misericórdia, penetra mais intensamente na vida da Michele.

– Tão bom ficar sem fazer nada. A única coisa ruim é que não consigo mais tirar notas boas. Já nem suporto ir mais ao colégio. Para quê? Só para ficar ouvindo aquele monte de exibidos falarem que estão estudando dia e noite. Está bem que não sou mais eu, mas pouco me importa o que eles pensam. Estou bem aqui no meu sofazinho só fazendo nada. Às vezes eu fico assim meio inquieta, mas passa logo. A primeira coisa que vou querer fazer quando me formar, se eu me formar, é me aposentar. Ai ai… – pensava Michele.

Num súbito ato de coragem, Michele foi a uma festa onde conheceu aquela que seria sua melhor amiga, a Carol. Foi afinidade à primeira vista entre as duas, e logo no dia seguinte Carol já frequentava a casa de Michele – por coincidência elas moravam próximas uma da outra. Mas ainda assim era sempre Carol a visita.

Carol vinha de uma família bem humilde e trabalhadora e, conversando mais com Michele, percebeu que sua missão seria tirar aquela menina linda e inteligente do parasitismo físico e intelectual. Depois de muitos anos tentando, chamando Michelle para sair, para conhecer sua igreja, sua religião, Carol conseguiu o que queria: revigorar Michelle, que andava muito deprimida, e sua maior estratégia foi começando pelas coisas que Mi, como era chamada, mais gostava: pintura. E juntas fizeram um curso de pintura que foi a “porta de saída” da preguiça.

Michele, lentamente foi deixando o tal sofá de lado. Ficava mais com seus quadros,  que era o que ela mais gostava. Chamavam-na de Frans Bluk, uma pintora muito famosa da época. Depois de começar a, pelo menos, fazer coisas que gostava, Carol convenceu Michele a fazer caminhadas, e assim por diante. Até que Michele já estava formada, trabalhando com o que gostava, e Carol simplesmente desapareceu. Isso aconteceu bem na época que ela começavam a frequentar mais intensamente a Igreja, e todos os dias Michele rezava agradecendo a presença de Carol em sua vida.

De volta ao inferno…

-Mas que droga! Por que isso aconteceu? Estava indo tudo tão bem.

-Não desanime senhor, existem mais pessoas em quem aplicar o pecado.

-Cala a boca! Eu sei que isso tem o dedo Daquele “limpinho”. Mas se ele pensa que vai ficar por isso mesmo não vai não. Vou criar coisas tão ruins quanto. Pega meu caderno serviçal! Vou começar já!

– Sim senhor!

De volta ao céu…

O céu estava em festa com a volta da anjinha Carol.

-Belo trabalho Carol!

-Eu sabia que você ia conseguir!

Todos a recebiam calorosamente em mais uma vitória de Deus na Terra. E Deus, já sabendo que tudo aquilo ia acontecer, ficava à distância vendo a alegria de todos do céu e da Terra.