Mário, um desocupado da Isla Negra (Chile) consegue o emprego de carteiro do povoado, mas tem uma única pessoa a atender: o poeta Pablo Neruda (1904-1973).

Mario quer conquistar mulheres e resolve assediar o autor de Vinte poemas de amor e uma canção desesperada para que lhe ensine os segredos da poesia, que, para ele, é uma arma de sedução. Neruda, então, fala a Mário sobre metáforas e sobre ritmo e assim que o carteiro conquista Beatriz e se casa com ela…

Essa é, em parte, a trama de ARDENTE PACIÊNCIA (Ardiente paciência, 1985, em tradução de Beatriz Sidou para a Record), de Antonio Skármeta, rebatizado agora, na hora da republicação, como O carteiro e o poeta, para aproveitar o sucesso do filme de Michael Radford (“Il postino” ou “The postman”, 1994), onde a história é transferida do Chile para Itália, e recuada na tempo, para a década de 50.

A versão cinematográfica investe a fundo numa revoltante pieguice, tentando seguir os passos de Cinema Paradiso. Já o romance de Skármeta é repugnante por outras razões. A principal: o autor usa o tempo todo um tom gaiato para mostrar que os embates de Mario, representante do povão,  com a “arte” só podem ser cômicos. Mas ele e o resto do zé povinho compensam tudo com o vigor sexual. É o que se depreende de trechos repelentes tais como: “Mario, nesse mesmo instante, soube que a ereção sustentada com tanta fidelidade durante meses era uma pequena colina em comparação com a cordilheira de energia de seu púbis, com o vulcão de uma nada metafórica lava que começava a desenfrear seu sangue, a turvar seu olho, a transformar até sua saliva em uma espécie de esperma”!!!??? Quer mais?: “…empapando os seios da garota de saliva, promulgou um orgasmo tão estrondoso, desmedido, estranho, bárbaro e apocalíptico que os galos acharam que tinha amanhecido e começaram a cocoricar… os cachorros confundiram o uivo com o grito do noturno ao sul e começaram a ladrar para a lua…”!!!!????

Além disso, O carteiro e o poeta, da maneira como enfoca Neruda, pode ser incluído numa linha recente de obras que procuram traduzir para o senso comum a vida de grandes artistas, nivelando-os por baixo com o resto da raça humana, basta lembrar de Tom & Viv (sobre T.S. Eliot), O círculo do vício (sobre Dorothy Parker) ou Carrington-Dias de Paixão (sobre o Círculo de Bloomsbury), quando não são tramas policiais enfeitadas com alusões a grandes nomes artísticos ou filosóficos, como Dante ou Wittgenstein.

Era dose a romantização e heroicização dos artistas que se fazia antes, mas que eles virem carniça para os urubus da mediocridade é pior ainda. O próprio Neruda deu, infelizmente, sua contribuição à mediocrização da sua figura ao escrever uma autobiografia tão demagógica como Confesso que vivi. E, verdade seja dito, o que restará da vasta obra do poeta chileno, tão pródiga de momentos ruins? Talvez o que permaneça dela seja apenas Residência na Terra, sem dúvida um dos maiores entre os maiores livros de poesia.

Quanto ao livreco de Skármeta, ele pelo menos tem uma vantagem sobre o filme: não tem aquela música de chorar (para dizer a verdade também não sou fã do protagonista, Massimo Troisi, que todo mundo parece achar o máximo), mas dá para notar que o autor escreveu pondo todos os recalques para fora. Tudo bem, já que é para nivelar por baixo, até Dostoiévski fazia isso. Só que Ardente paciência é uma das piores entre as piores coisas já escritas (e não venham falar do “fundo político” que o relato contém, porque ele o usa como um recurso fácil e tão panfletário).

Num mês em que morreram grandes escritores como Vergílio Ferreira e Marguerite Duras, é terrível pensar que só irão restar os Skármetas no mundo para lançar romances. Seria preferível o apocalipse.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 26 de março de 1996)