Oh menina entre rosas, oh pressão de pombas/ oh presídio de peixes e roseirais/ tua alma é uma garrafa cheia de sal sedento /e um sino cheio de uvas é a tua pele…//Só posso te querer com beijos e papoulas/ com grinaldas molhadas pela chuva/ olhando cinzentos cavalos e cachorros amarelos./ Só posso te querer com ondas por detrás/ entre vagos golpes de enxofre e águas ensimesmadas/ nadando contra os cemitérios que correm em certos rios/ com pasto molhado crescendo sobre tristes tumbas de gesso / nadando através de corações submersos/ e pálidos cadernos de meninos insepultos…”

Quem diria que depois de escrever versos desse naipe (que o leitor encontrará em Residência na Terra, um dos maiores momentos da poesia do século XX), Pablo Neruda (1904-1973) iria viver demais, publicar demais, e banalizar seu estilo com um timbre tão demagógico e piegas. Pior ainda, mesmo depois da morte física, a fábrica Neruda não fecha, encontram-se versos e mais versos para se enxugar o canto do olho com lencinhos ou então sentir que o Povo vencerá o Imperialismo no último capítulo da luta do Bem contra o Mal.

Pois não é que descobriram versos do Neruda de quinze/dezesseis anos! São os CADERNOS DE TEMUCO (“Cuadernos de Temuco: 1919-1920”), cidade chilena onde viveu o poeta antes de conhecer o carteiro. A expectativa, após tanta bobagem nerudiana, era temível. Para completar, os versos foram traduzidos por Thiago de Mello, o mais ilustre representante brasileiro da Poesia Horror Show. E afinal, versos de adolescência são versos de adolescência, em qualquer parte do mundo, Rimbaud à parte. Quem não os cometeu? Triste é o fato de alguém tê-los guardado.

Porém os especialistas (a edição de CADERNOS DE TEMUCO foi preparada por um estudioso do Nobel de 1971, Victor Farias) acreditam que todo mundo compartilha da sua fixação nos restos de gaveta e dos cestos de lixo do seu objeto de estudo. Talvez para eles seja um frisson achar um inédito que pouco acrescentará à obra de um autor, mas é preciso gastar papel e impor a “descoberta” ao público? Ainda mais se essa “descoberta” nem tiver sido cogitada para publicação pelo próprio escritor?

Com tudo isso (o fato de serem versos adolescentes, o oportunismo editorial, a escassa contribuição literária), ainda impressiona o fato de que os poemas de CADERNO DE TEMUCO formarem um conjunto digno. São poemas de quem está se esforçando para encontrar uma voz, uma dicção realmente poética, que vai alinhavando certas imagens recorrentes e traçando um discurso próprio sobre o mundo.

Mesmo assim, a monotonia é inevitável, pois o volume é recheado com imagens do tipo “profanas pupilas” (há, também, as “pupilas plenas de cansaços chorados”), “almas fatigadas de dor”, “suave mansidão de amar”, “bruma dolorida do olvido”, “lagos de encantamento”, “asas da meditação”, “violinos de prantos de ouro”, “mananciais de choro”, “ferida do meu pessimismo”, “perversos abismos” (e há os “abismos dulcíssimos do caminho ideal”), “ventos de desolação”, “canções tecidas de rosas”, “ânsia de bondade”, “triste sonata destes males eternos”, “fatais signos do olvido” (há, também, a “neblina do olvido”), “ossos congelados na rajada da dor”, “mágoa antiga que me rompeu as asas”, “pétalas derradeiras de uma boa ilusão”, “mácula enfermiça desse eterno sentir”, “sementeira de ilusões”, “ventos feridos da minha perdição”, “santo poema do nosso amor”, “chaga dos lábios mal feridos”, “asas negras da amargura” e mais um rol de cafonálias (além de imagens basicamente inverossímeis pela falta de vivência) que poluem e desfiguram as tentativas de voo poético do adolescente de Temuco.

Há momentos cômicos, como A vulgar que passou: “Não me eras para os sonhos e nem para os meus cantos/ sequer para o prestígio de meus amargos prantos…/ Eras para o imbecil, eras para um qualquer/ incapaz de sonhar o que por ti sonhei/ mas que bem te daria o prazer animal”!!??

E no meio de toda essa verborragia imatura, nesses cadernos de menino insepulto, um ou outro lampejo do melhor Neruda, do poeta genial que ele em certos momentos foi: “agora uma aridez te amarra, muda/ um desencanto de árvore desnuda/ que amanhã se abrirá, sonho do chão”; ou: “na espasmódica agitação da vida/ em cansaços e em vagas urdiduras de tédio/ vibram, pássaros cegos, as perguntas submissas”.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 06 de outubro de 1998)