Estamos no outono, mas o inverno se apossou do meu corpo há alguns meses. O silêncio do frio brinca com a minha inconstância interna. Afundo na areia movediça branca. Rajadas me infestam, espalhando-se como fractais enlouquecidos. Não sinto, não respiro, não vivo. Congelo.
Ninguém suspeita disso. Acham que estou ali, inteiro, e não suspeitam da inesperada jornada que faço por dentro do meu inverno. Quando divisei a Fossa Mariana onde estava prestes a entrar, imaginei que seria um percurso curto. No entanto, os dias passam e ele se torna cada vez mais inóspito, cada vez mais cruel. Caminho nos cenários repletos de depressão à procura de placas capazes de me guiar. Ou atrás de algo que perdi, algo que não sei o nome, mas é importante. Ou devia ser.
Diz Tchekhóv que, quando as pessoas são felizes, elas não reparam se é inverno ou verão. Não soa como um presságio muito promissor saber que só sinto o inverno por dentro. Sinto-me um traidor ao recusar a própria existência da felicidade, ao afastar de mim o conforto de dias melhores. Alguns dizem que o inverno está chegando; em mim, ele chegou há algum tempo e nunca mais saiu.
O mais coerente com meu estado de espírito pode ser Paulo Leminski, que escreveu:
Inverno
É tudo o que sinto
Viver
É sucinto
Neste longo inverno da alma, as minhas funções vitais estão preservadas no mínimo de força para permitir a sobrevivência. Reconheço em mim a postura do urso: recolhido na caverna, deixo o inverno vir de dentro para fora, diminuindo as batidas do coração, os sobressaltos da surpresa, a intangibilidade da alma. Diriam que estou dormindo, mas estou preservado: sou o mamute dentro do bloco de gelo. Não sinto, logo não sofro. O meu interior é possuído por um inverno muito mais inóspito, pois, mais do que uma estação, também é um estado de espírito.
Quem tentar chegar na minha alma através dos olhos, irá se deparar com a nevasca incessante que borra os sentidos e perturba a jornada. No meio do desfazimento do universo em ondas de pedaços brancos, eu caminho, ainda procurando. Ainda perdido. As migalhas do labirinto se desvaneceram; tento encontrar a trilha e ela se desfaz em ilusões. Também existem miragens na neve. Dentro do meu inverno, os fantasmas brincam com suas vozes e me enganam. Eu não consigo mais confiar nos meus pensamentos. Estou vendo a realidade de forma errada.
Gostaria de ter o otimismo de Victor Hugo, quando diz que o inverno cobre a sua cabeça, mas uma eterna primavera mora no seu coração. Seria uma esperança inútil, pois é no coração que mora o centro do meu inverno, seu último bastião de resistência. O deserto ainda possui enganadores oásis nas curvas do seu labirinto sem paredes; no meio do inverno não existe o consolo de uma lufada de ar cálido ou a tranquilidade de um pouso seguro. Os sentimentos estilhaçam-se, mostrando a sua estrutura quebradiça. Quando se mora no nada, só existe silêncio e ausência. Nem o eco chega lá.
Camus escreveu que, nas profundezas do inverno, ele finalmente descobriu que, no seu interior, morava um verão invencível. O verão realmente é necessário? Não me desagrada viver neste inverno constante. Prefiro a calma da minha frieza do que a tepidez inesperada. Pelo menos ele não me ilude; congela, mas não destroi; preserva, mas não deixa nenhuma dor entrar. Agora que entrei neste caudaloso tempo de escuridão e ausência de outro sentido que não seja achar uma zona erma, não lembro mais o que é sentir calor. Acho que não tenho mais sangue.
Queria que a vida fosse simples o suficiente para ter os cinco desejos de Neruda:
Quero apenas cinco coisas..
Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o outono
A terceira é o grave inverno
Em quarto lugar o verão
A quinta coisa são teus olhos
Não quero dormir sem teus olhos.
Não quero ser… sem que me olhes.
Abro mão da primavera para que continues me olhando.
Mas a vida não é nada simples e, enquanto as estações se sucedem fora do meu corpo, não encontro esta paz de espírito. Por isto, fecho as portas e continuo vivendo no meu inverno que nunca acaba. Não espero achar a enganosa primavera ou o verão repleto de infantilidades; minha alma caminha no frio insondável e receio que ela esteja procurando lembrar o meu próprio nome, aquele que esqueci.

Publicado por Gustavo
Advogado, escritor e mestre em Letras - mas não nesta ordem. Autor de "O homem despedaçado", livro de contos lançado pela Dublinense em 2011. Ver todos os posts de Gustavo
