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Tema: Livros para ler ao sol

Calor. Céu limpo e iluminado. E literatura. Esta combinação proporciona a perfeita simbiose com o verão. E é nas páginas de um bom livro que gosto de saborear esta estação do ano, que nos permite estabelecer um ritmo mais dedicado e, talvez, célere. Porque o tempo é nosso e podemos geri-lo com outra liberdade. E nada como estar ao sol - na praia, na piscina, num parque, numa esplanada - com uma obra que nos faça viajar pelo mundo. Graças ao The Bibliophile Club, com o seu tema mais recente, aventurei-me com Júlio Verne.

A Volta ao Mundo em 80 Dias é um clássico. E o meu fascínio por descobrir novos locais, mesmo sem sair do lugar, aumentava a vontade de me perder neste enredo, que tinha tudo para me conquistar. E, em parte, foi o que aconteceu, porque somos convidados a viver quase duas histórias em simultâneo, intensificando o mistério, a adrenalina e a ansiedade, uma vez que não somos capazes de prever os contratempos e as peripécias que surgem em consequência dessas reviravoltas. Além disso, através de uma escrita simples, fluída e com traços de humor, há uma empatia imediata com as personagens. O único aspeto que me desmotivou, impedindo que me relacionasse em pleno com a narrativa, foi o claro desinteresse de Phileas Fogg em conhecer os sítios por onde passava. Naturalmente, entendo as motivações, pois o seu objetivo era claro: provar que é possível dar a volta ao mundo em 80 dias. No entanto, perde-se um pouco a vertente de exploração, havendo somente a preocupação de cumprir prazos. Embora o livro não perca o encanto, sinto que essa visão enriqueceria ainda mais o contexto delineado.

Em oposição, Júlio Verne é brilhante a trabalhar a nossa imaginação, a elevar o sentido de honra, de compromisso e de lealdade, a expor os costumes e os valores humanos e a caracterizar a alta sociedade do século XIX. O autor, simultaneamente, ao construir uma personagem tão peculiar como Fogg, conseguiu estabelecer alguns contrastes. Porque, no meio do um cenário de caos, onde as adversidades influenciam uma viagem programada ao segundo, o cavalheiro inglês nunca perde a sua postura serena e inquebrável. E esta antítese é mesmo interessante de acompanhar, até porque procuramos compreender se será uma constante ou se, a certo momento, sucumbirá à pressão. Este caráter imprevisível, que marca toda a obra, é fascinante, deixando-nos sempre alerta. 

A Volta ao Mundo em 80 Dias tem um ritmo frenético e uma elevada dose de loucura e inconsciência. Recorrendo a vários transportes, ginástica mental e temporal, há relações a serem consolidadas no fundo desta correria, permitindo prevalecer a persistência e a luta contra o tempo e contra o destino. Numa mistura entre aventura e ficção científica, partimos numa viagem quase sem limites, com um final que me surpreendeu. E, claro, atendendo à evolução humana, tecnológica e de infraestruturas, há uma pergunta que nos balança no pensamento: atualmente, quanto tempo demoraríamos a dar a volta ao mundo?

Deixo-vos, agora, com algumas citações:

«Passepartout desejaria objectar alguma coisa. Não pôde. Saiu do quarto de Fogg, subiu ao seu, deixou-se cair numa cadeira e, empregando uma frase vulgar na sua terra natal, exclamou:

- Isso é que é uma grande peça! E eu que procurava o repouso!...» [p:21];

«Havia em tudo isto uma coincidência pelo menos estranha. Que pretendia este Fix?» [p:87];

«Partindo, o "China" parecia ter levado consigo a última esperança de Phileas Fogg» [p:181].

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