STORYTELLER DICE ◾ LÍNGUA INQUIETA
ficção especulativa, realismo fantástico, narrativa de horror psicológico, contos autorais, mitos urbanos
Fotografia da minha autoriaTema 37: LínguaO peito batia descompensado, num descontrolo provocado por uma adição silenciosa. E como se as paredes da casa começassem a encurtar a liberdade, transformando a sala num cenário de tortura e de horror, Miguel correu para a rua, para conseguir respirar. Mas o desnorte era tão grande, que não o permitia recompor-se.Era noite cerrada e o jovem seguia sem saber onde se encontrava. Ao seu redor, tudo era feito de pequenos pontos luzidios, que o levavam em direção ao desconhecido. Mas ele prosseguia. E o seu peito ia apertando com mais força, sugando-o. Descompensando-o. Desesperando-o. E deixando-o perto de enlouquecer.Entrou num jardim qualquer e a língua inquieta de um dinossauro atraiu-o. A multidão gritava-lhe: parte enfurecida, parte com olhares nervosos. Mas, para Miguel, ninguém estava ali. Só ele e aquela voz; aquele robot robusto que, no seu entender, era a figura esguia de uma mulher. Por isso, continuou para a alcançar.De repente, um som gutural cobriu o ar e as sirenes dos carros da polícia afluíram ao local. Depois de buscas exaustivas, parecia que tudo aquilo não tinha passado de um mal entendido. Enquanto a língua do dinossauro se revestia de um mistério sombrio, o corpo de Miguel esfumou-se como uma espécie de nevoeiro falso.Hoje, há uma lenda que habita o jardim. E todas as noites 7 de março, durante visitas noturas, existe quem garanta que se ouvem passos e um respirar lento, como se estivesse alguém submerso a tentar salvar-se.
Texto originalmente publicado em Entre Margens