(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 06 de abril de 2004)

Há alguns anos, resenhei com dureza o romance de Frei Betto, Entre todos os homens, antes de tudo por ser literariamente fraco, e, além disso,   por desfibrar a figura de Cristo, acomodando-a a um catolicismo moderninho e aguado.

Como no momento só se fala do filme de Mel Gibson e da experiência excruciante que é assisti-lo, é interessante comentar as obras literárias de peso que “acertaram” na abordagem da vida de Jesus. Nenhuma delas, como já afirmei  outras vezes,  é mais importante do que A última tentação de Cristo (1956), de Nikos Kazantzakis (1883-1957) .

No capítulo 17, depois de ter sido batizado por João, Jesus vai para o deserto  (onde sofrerá as famosas tentações,  após as quais um derrotado Lúcifer diz: “Ainda vamos nos encontrar outra vez, em breve”, o que acontecerá na crucificação, quando surge o ensejo para a “última tentação”: uma vida como a de qualquer outro homem).  Lá, encontra a carcaça de um bode, não qualquer bode,  mas o chamado bode expiatório que a população das aldeias enche com amuletos e que é escorraçado e apedrejado até morrer no deserto: “Meu irmão, você era inocente e puro, como todos os animais. Mas os homens, esses covardes,  fizeram-no portador de seus pecados, enviando-o para a morte. Decomponha-se em paz. Não lhes guarde rancor. Os homens, esses fracos,  não têm coragem de pagar por seus próprios pecados: preferem pendurá-los no pescoço de um inocente”.

Como se vê,  aí já temos uma prefiguração  do destino: boa parte de A última tentação é composta pelo duro aprendizado  de Jesus como pharmakós, o bode expiatório. É o pressentimento disso que faz  com que ele se furte à sua “missão”  durante  30 anos,  chegando ao ponto de degradar-se  fazendo cruzes para os romanos executarem seus compatriotas rebeldes.

Kazantzakis escreveu uma história de Cristo sob o signo de Dostoiévski e Nietzsche. De Dostoiévski temos a ideia de Deus como um tormento na vida do homem, espicaçando-o, testando seus limites e arrastando os demais nesse dilema (é o que acontece no livro com os discípulos, Madalena, as irmãs de Lázaro: Marta e Maria); de Nietzsche temos a superação do homem para um “além do homem”, com acesso a uma nova forma de existência, através de ensinamentos-relâmpagos que desestabilizam quem os recebe. É o Jesus-Zaratustra incendiário, que vem varrer os princípios da nossa vida, que nada tem a ver com o Jesus fraquinho de Frei Betto, tão politicamente correto.

De certa forma, temos uma espécie de arqueologia narrativa das raízes dos evangelhos, contrariando o princípio moderno de deixar de lado os estratos mais incômodos, realçando apenas aspectos mais tolerantes. O mesmo (guardadas as devidas proporções, é claro) acontece com A paixão de Cristo, praticamente o único filme até hoje a dar uma noção física, por assim dizer, do que foi realmente o sacrifício de Cristo pela humanidade, sem concessões e sem desvios. Só que enquanto Mel Gibson nos torna espectadores aterrados, porém ainda assim meramente espectadores, passivos, de um evento portentoso e incognoscível, que nos supera e nos causa uma sensação de insignificância, o objetivo de Kazantzakis é fazer cada leitor assumir como sua a trajetória de Cristo, o seu processo de auto-esclarecimento em meio a tantas ambiguidades e contradições: “desejava oferecer um modelo supremo ao homem disposto a lutar”.

Daí sua imensa profundidade filosófica, existencial e até teológica, sem falar na autoridade estética (de que temos outras provas, como o magnífico O Cristo recrucificado, o atormentado Testamento para El Greco e os belos Zorba, o grego e O pobre de Deus). É por isso que a versão de Scorsese, de que eu gosto muito, e cujas maiores qualidades derivam do virtuosismo único do diretor, é insatisfatória  porque deixou tanta coisa de lado, entre elas a inimitável atmosfera das aldeias nas quais Jesus viveu, perambulou e pregou, descritas por Kazantzakis com tal força que não é à toa que a suprema tentação de Cristo acabe sendo seu apego telúrico: “Ele abaixou-se, pegou um punhado de terra e cheirou-a. O aroma penetrou até o fundo do seu ser… esfregou aquela terra no rosto, no pescoço, nos lábios. Segurava aquele solo na palma da mão e não queria se separar dele nunca”.

Contudo, para ele, o cordeiro que nasceu para ser abatido, o ciclo das estações e da vida precisa ceder ao rito sobrenatural da Páscoa, no seu significado mais agudo: “A Páscoa, meus fiéis companheiros, significa uma passagem, passagem das trevas para a luz, do cativeiro para a liberdade. Mas a Páscoa que celebramos nesta noite ainda vai adiante. Hoje a Páscoa representa a passagem da morte para a vida eterna”.

O desalentador, na leitura de A última tentação (muito bem traduzido,ainda que não diretamente do grego, por Waldéa Barcellos & Rose Nânie Pizzinga), e após assistir A paixão de Cristo, é que o bode expiatório ainda continua uma muleta para a humanidade: ela nunca executa a passagem, ela nunca muda.